segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Marcelo: "É tempo de pagar dívida moral" ao país

DN
Marcelo Rebelo de Sousa é o único político nacional que tem de forçar-se a ser pior para ser levado a sério. Na sexta-feira apresentou a candidatura presidencial e leu um texto que poderia ter dito de improviso e certamente melhor, com mais alma, talvez com alguma graça, certamente até com emoção - porque estava genuinamente emocionado - tudo sem perder conteúdo. Mas não o fez. Optou por ler, seguindo a cartilha convencional e sem desvios ao guião. O texto era bom, quer dizer, tocava em todos os pontos que era suposto tocar, sem deixar ninguém de fora, reforçando assim as características políticas, intelectuais e profissionais que fazem de Marcelo o mais forte candidato presidencial. Depois de um percurso com várias derrotas políticas no PSD e na candidatura à Câmara de Lisboa, não há grande dúvida de que chegou o momento dele e dificilmente o deixará escapar. Ainda bem que é assim. É bom para o país. Ao contrário do lugar-comum que define Marcelo como um político imprevisível e por isso não confiável, nos assuntos realmente sérios ele esteve quase sempre do lado certo e por convicção, não por conveniência ou por calculismo eleitoral. Rejeitou sempre a mediocridade do statu quo. Foi assim que aprovou os orçamentos de António Guterres, essenciais para a entrada de Portugal no euro, apesar das vozes dentro do PSD que lhe exigiam o contrário, e foi assim também que desfez a coligação com o CDS quando se tornara impossível aguentá-la mais, mesmo sabendo que seria o seu epílogo como líder dos sociais-democratas. E no entanto sempre que se fala de Marcelo o que se valoriza são os episódios picarescos que parecem revelar uma personalidade excêntrica e fora do baralho. Não podia ser mais errado o diagnóstico: Marcelo é um grande político que teve o azar de ser também um magnífico e natural comunicador - um pecado fatal num país que ainda cultiva o cinzentismo como sinal (falso sinal) de maturidade e inteligência. Agora que o país aguarda uma solução governativa, uma coisa é certa: a Presidência da República, se Marcelo ganhar, vai ter um inquilino à altura das circunstâncias.

P.S. António Costa está a dar cabo da sua carreira política e pelo caminho do PS. Já deixou cair Sampaio da Nóvoa, numa das traições políticas mais vergonhosas de sempre, e ameaça atirar o país para uma alucinante balbúrdia governativa ao alimentar o delírio de querer ser primeiro-ministro à força. Mesmo que recue, o mal está feito. De político fiável passou à categoria de político habilidoso.

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