quarta-feira, 7 de outubro de 2015

O voto libertário

Carlos Guimarães Pinto
Uma questão com que muitos liberais se confrontam, especialmente no contexto político europeu, e particularmente no português, é em quem votar nas eleições. O funcionamento do sistema político partidário fomenta o socialismo. O sistema democrático tem mesmo um processo endógeno de selecção adversa que favorece o crescimento de dinâmicas socialistas dentro dos partidos. Os retrocessos do socialismo que de vez em quando acontecem não passam de desvios à tendência geral de um caminho lento, ou nem por isso, em direcção ao socialismo. Neste contexto é bastante complicado para um liberal escolher em quem votar, já que quase sem excepção acabará por votar num partido ou candidato que viola as suas convicções das formas mais diversas.

Perante esta realidade, a escolha de muitos é não votar. Ao não votar, abstêm-se de assumir a sua parte de responsabilidade pelo declínio em direcção ao socialismo que inevitavelmente acabará por acontecer qualquer que seja o partido ou candidato vencedor. É, assumem os defensores desta estratégia, uma forma de não dar legitimidade a qualquer vencedor. Uma segunda opção, mais pragmática, é votar por sistema no mal menor, no partido ou candidato que mais lentamente irá levar o país no caminho do socialismo.
A primeira opção, não votar, tem o benefício de desresponsabilizar o indivíduo que a toma. O indivíduo pode, de consciência tranquila, dizer que não contribuiu de nenhuma forma para aquilo que o partido ou candidato vencedor acabou por fazer. Claro que este alívio de consciência é centrado numa falácia: a de que a abstenção não tem custos escondidos. Ainda que Hazlitt não tenha falado neste caso específico, não é complicado pensar nos custos escondidos de se abster de votar, nomeadamente o de não contribuir para desacelerar do socialismo votando no mal menor. Na verdade, aceitando a existência de diferenças no grau de socialismo dos diferentes partidos, não votar é perder a oportunidade de contribuir para a desaceleração no caminho para o socialismo.
No entanto, votar por defeito no mal menor, também não vem sem custos. No actual sistema partidário, estando os libertários num ponto distante do centro gravitacional, o “mal menor” tenderá a localizar-se sempre na mesma área política. Quase inevitavelmente, os partidos de centro-direita e direita serão os menos distantes do pensamento libertário (há excepções, eu sei). Por isso, alguém que vote sempre, e por defeito, no “mal menor” acabará por votar no mesmo partido ou candidato. O problema desta estratégia é que também faz pouco para desacelerar o declínio em direcção ao socialismo. Se o voto dos liberais for dado como garantido pela área política do mal menor, os candidatos dessa área política sabem que não precisam de se esforçar para o obter. Desde que sejam ligeiramente menos socialistas, terão sempre garantido o voto liberal. Mas como sabemos, não são os votos garantidos que regem a estratégia política.
Os que tiveram paciência para ler o artigo até aqui, perguntar-se-ão porque é que isto é importante? Havendo tão poucos liberais em Portugal, que importa a direcção do seu voto? Se pensa assim, está a cometer um erro: o de pensar que todos os votos são iguais. Não são.Na verdade, toda a acção política tem como objectivo satisfazer uma parte pequena do eleitorado: os swing-voters. Representando não mais de 10-15% do eleitorado são eles que decidem os vencedores de todas eleições e é para eles que os partidos governam. É para eles que os programas eleitorais e os soundbytes de campanha são feitos. Os votantes cativos podem ser importantes em eleições primárias, mas são irrelevantes em eleições nacionais. Quanto mais fiel for um eleitor, menos relevante é a sua vontade para o partido que beneficia da sua fidelidade. O posicionamento político do eleitor fiel é irrelevante para um candidato cujo objectivo seja captar o maior número de votos.
Entendendo isto, a estratégia óptima para um eleitor liberal é um misto das duas estratégias anteriores: algumas vezes votar no mal menor e noutras abster-se. Optar pela abstenção, de vez em quando, tem o custo de ajudar a entregar o país ao “mal maior”. Por outro lado, tem a vantagem de tornar credível o seu estatuto de swing voter, aumentando a importância do seu voto para os partidos em futuras eleições. Se a diferença entre o “mal menor” e o “mal maior” for suficientemente pequena, a vantagem de longo prazo de se abster pode superar a perda de curto prazo de ajudar a eleger o “mal maior”.
Para lá de todas as considerações políticas, morais e filosóficas, esta parece-me ser a única estratégia de voto que garante relevância ao pensamento liberal no sistema partidário. Uma estratégia que custará certamente bastante a quem se orgulha de estar fora do sistema, mas que tem a vantagem de contribuir efectivamente para abrandar a velocidade no caminho da servidão.

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