sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Por poucochinho é que não

Nuno Melo

"O PS vai ganhar as eleições, pois o povo não é estúpido". O insulto gratuito de Correia de Campos a quem negasse virtudes socialistas, feito dias antes das eleições de 4 de outubro, teve resposta nas urnas. 2 060 186 portugueses deram a vitória à coligação Portugal à Frente. E o PS perdeu.
Perdeu, porque o que Portugal alcançou nos últimos quatro anos não foi coisa pouca.
Perdeu também, por sucessivos erros que no PS permitiriam redigir um compêndio acabado, espécie de ABC, sobre como melhor perder eleições legislativas. Estaria tudo lá:
Um candidato a primeiro-ministro, desconhecedor de aspetos essenciais do seu programa de Governo; O confronto permanente com a realidade, de quem negou resultados macroeconómicos validados por todas as entidades oficiais, ficcionou desempregados ostentados em cartazes, afinal com trabalho pago em autarquias socialistas, e encenou a espontânea anónima de "faz-de-conta", lamuriando o filho recém-casado com luxo, mas emigrado na China, com a conivência confrangedora de Jorge Coelho; A justificação abonatória do modelo radical do Syriza, que em seis meses se limitara a destruir a utopia e a afundar a Grécia; A antecipação do chumbo do próximo Orçamento do Estado em caso de derrota, ameaçando os eleitores com a paralisação do país; A metáfora sem nível em palco, com recurso a coelhos vivos, numa alusão deprimente a Pedro Passos Coelho; O apelo velado ao voto no domingo eleitoral, em violação da lei, denunciando o desespero de última hora; O BE, por seu lado, obteve um bom resultado. Compreende-se. E em larga medida também se encontram motivos no Largo do Rato.
A confissão da disponibilidade de António Costa, para acordos à extrema-Esquerda com o PCP e o BE, retirou qualquer eficácia ao argumento do voto útil no PS. E a "bloquização" do partido - rejeitando a moderação do centro que assegurara vitórias passadas - afirmada no discurso clonado da extrema-Esquerda de alguns dos seus dirigentes, fez o resto.
Quem quis uma agenda radical não votou no PS; escolheu o BE. Rejeitou a cópia e deu a mão ao original. Para quê escolher João Galamba ou Pedro Nuno Santos, quando se poderia optar por Catarina Martins ou Mariana Mortágua?
Ironia do destino, António José Seguro foi apeado do poder depois de duas vitórias que António Costa achara "por poucochinho" e que sabiam "a pouco". António Costa não perdeu por poucochinho, não sendo de crer que a derrota lhe tenha sabido melhor.
Mas essas, claro, são contas do rosário socialista.

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