sábado, 3 de outubro de 2015

Reflexão eleitoral

 Mário Amorim Lopes

Não sei o que lhe terá passado pela cabeça. O destino era incerto, a contestação garantida. Discordemos de tudo, mas algo era inelutável — quem nesse momento pegasse no país para o tentar reerguer, aplicando um duro plano de assistência financeira com severas implicações económicas e sociais, iria ser atacado, vilipendiado, contestado e ameaçado. Era inexorável. Estávamos a 6 de Junho de 2011, um dia após as eleições.

E assim foi. Nestes quatro anos foram aplicadas as tais medidas duras e impopulares, que lhe minariam o caminho, e que tocariam a todos. A todos, quase sem excepção. Aos visados, aos fustigados, mas também aos comentadores e aos avençados. Não faltaram ressabiados e dois arrimados em pendant — ah!, rima. Medidas inevitáveis. Poucas ou nenhumas davam votos. Quase todas tiravam. Todos sabiam isso. E por isso alguns adiaram a sua candidatura à liderança do partido, à espera de tempos melhores. Todos prometiam caminhos fáceis, uma via de facilidades, mesmo com o país a raiar a bancarrota. Quase todos. Mas não todos. Outros caminhavam, por entre contestações, movidos, mas não demovidos.
Não foi tudo perfeito, porque nunca será. Nunca é. E, no entanto, não sendo perfeito, algo está melhor. Bastante melhor. Do que é possível ser melhor. Ainda há pouco mais de quatro anos o país era, uma vez mais, resgatado. Perfeito? Não. Melhor? Sim.
Este artigo foi escrito há vários dias atrás. Quatro anos depois desse dia. Continuo a não saber o que lhe passou pela cabeça. Mas agradeço-lhe. A ele e a todos os que por entre tantas adversidades seguraram nisto e fizeram o que tinha de ser feito. O fácil era assistir de fora à cata do momento oportuno. O fácil era atirar a toalha ao chão perante as primeiras dificuldades. O fácil era não ser contestado e não ser vaiado. O fácil era não fazer nada. Isso era o mais fácil. O difícil era fazer o que tinha de ser feito.
E também seria mais fácil para mim, para todos, não verbalizarmos nada disto. Quando vemos muita gente a correr para um lado, correr para o lado oposto pode ser perigoso. Excepto neste caso. Neste caso é um imperativo de consciência. Imperativo de consciência. Talvez tenha sido isso que lhe passou pela cabeça. Não sei. Mas sei em quem votarei.

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