segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Rescaldo das eleições

Rodrigo Adão da Fonseca 

A Coligação não atingiu o seu objectivo maior, uma maioria que permitisse, sem sobressaltos, governar com apoio parlamentar inequívoco nos próximos quatro anos. Conseguiu, ainda assim, uma vitória clara e segura, afastando os cenários de caos constitucional que resultariam caso o PS tivesse mais deputados que o PSD. Assim, não só o PSD teve mais deputados que o PS, como PSD e CDS-PP, juntos, têm mais deputados que PS+Bloco de Esquerda. Passos Coelho e Paulo Portas têm pela frente, agora, um enorme desafio, o de governar em compromisso, assumindo um discurso político e governativo aberto e partilhado com a população, como forma de legitimação da sua acção, essencial não só para a estabilidade política como para reforçar a sua posição caso venha a haver eleições antecipadas. A Coligação vai provavelmente focar-se no processo de reconciliação em marcha desde as Europeias, para tentar recuperar a parte do eleitorado que lhe fugiu nestas eleições legislativas (há 12% de eleitores que votaram PSD ou CDS-PP em 2011, e que ainda não fizeram as pazes com a Coligação, e que são o sustentáculo óbvio para permitir a curta recuperação que falta para atingir uma maioria). Uma análise detalhada dos resultados mostra, ainda, que os partidos da Coligação têm um enorme trabalho a fazer junto dos eleitorados urbanos de Lisboa, Setúbal e Açores, e algo no Porto, eleitorado esse muito exposto à manipulação dos media. Ter, assim, um discurso consistente e sereno junto domainstream mediático é essencial para evitar que o país se radicalize, abrindo espaço para a proliferação de ideias ao bom estilo do Syriza. 
O PS é o grande derrotado das eleições. Teria sido melhor para o PS que a Coligação tivesse tido maioria absoluta, pois tal permitiria que os socialistas iniciassem com menor pressão a travessia no deserto que necessitam para voltar a apresentar-se aos eleitores de cara lavada, algo que não aproveitaram no período 2011-2015. A forma ambivalente como Costa geriu o PS, ora aplaudindo derivas esquerdistas e vitórias do Syriza, ora apresentando um programa económico sustentado por economistas equilibrados, ora praticando um discurso negativo e radical, ora tentando mostrar-se como partido moderado e gerador de consensos, confundiu parte do seu eleitorado potencial, que na hora da verdade, preferiu votar, ora na Coligação, ora no Bloco de Esquerda. Acontece que a clarificação a fazer, ex post, vai agora ser mais dolorosa, vai ser reativa e exigida num contexto onde o ónus da governabilidade depende do PS, sob as facas afiadas de uma parte significativa do aparelho mais moderado e de um Bloco de Esquerda saído de um resultado histórico, pronto para aproveitar (mais uma vez), qualquer escorregadela dos socialistas. A fratura é óbvia, e vai manifestar-se no curto prazo pelo menos em dois momento decisivos (e isto se a atual liderança não implodir antes): aquando da votação do Orçamento de Estado, e nas eleições presidenciais. Uma má gestão política por parte dos socialistas poderá levar a que o Bloco de Esquerda cresça significativamente, tornando-se, não num Syriza luso, mas numa força relevante que parta o PS em dois. O que se está a passar no PS não é muito diferente daquilo que se sente no Reino Unido, em Espanha, na Grécia, em França, na Itália, com soluções e alternativas próprias do quadro partidário local: Como compatibilizar socialismo democrático com crescimento económico e rigor orçamental, no quadro de uma moeda única? Com a afirmação a que se assiste em toda da Europa, da social-democracia, há espaço para estes socialistas? A resposta a estas questões é óbvia, e a ruptura latente dos socialistas é evidente. 
O Bloco de Esquerda é o grande vencedor das Eleições. Depois de alguns anos de indefinição, o Bloco não conseguiu apenas mais votos e mais deputados, encontrou um novo espaço político onde faz sentido existir. Ao mérito próprio, muito têm Louçã e Catarina Martins que agradecer a António Costa e alguns de sus muchachos que, intercalando com frequência um discurso muito radical, ajudaram a fabricar um espaço político que o Bloco soube capitalizar para si, com o mérito de uma boa campanha. O Bloco só não cresce mais na Esquerda porque existe a CDU, cujo núcleo de eleitores se mostra sólido que nem um … Bloco. Resta-lhe tentar expandir-se junto do eleitorado do PS, algo que têm sabido fazer com mestria. Os ares que sopram da esquerda europeia ajudam a que, esgotadas as “causas fraturantes”, se possam reinventar como núcleo anti-austeridade e anti-Euro, pressionando o PS e a sua ala mais radical (que tem aliás mais proximidade e afinidade não só discursiva como pessoal com o Bloco e as suas gentes do que com a ala moderada do seu próprio Partido). O seu grupo parlamentar (com duas Mortáguas, uma nova Catarina Martins revelada na campanha eleitoral, e mais-não-sei-quantos à entrada menos conhecidos mas que devem vir com a formação revolucionária completa, a que se juntam os jovens turcos do PS, João Galamba, Pedro Nuno Santos e Tiago Barbosa Ribeiro), vai fazer da Assembleia um verdadeiro chapitô político, para gáudio d’O Insurgente que necessita de matéria-prima para poder trabalhar. Tempos interessantes se avizinham. 
A CDU teve o resultado seguro de sempre. Nada de mais a dizer, que não, graças a Deus que há um partido comunista conservador em Portugal, que fixa uma determinada faixa do eleitorado, e impede aventuras. A CDU sabe que não pode juntar-se ao PS e ao Bloco de Esquerda, sob risco de completa desagregação e perda da sua razão de existir. Resta-lhe prosseguir a sua ortodoxia e defender a sua base de implantação, para ir sobrevivendo. Ainda assim, é previsível que nos próximos meses a CDU renove a sua liderança. Jerónimo está envelhecido, e a CDU, com uma liderança mais jovem, pode não só manter o seu núcleo duro de eleitores, como reclamar uma fatia do espaço que o Bloco de Esquerda está a capitalizar, do discurso anti-Euro e de desagregação do PS, tal como hoje o conhecemos.
O PAN elegeu um deputado. Parabéns ao PAN.

5 comentários:

Afonso de Portugal disse...

Uma análise bastante decente, sim senhor. Não deve ter sido fácil encontrá-la entre as dezenas de reacções parciais da maioria dos "comentaristas" da imprensa cá do burgo (recuso-me a chamar-lhes comentadores, porque esses são supostamente isentos)!

Jhonny disse...

«Porto, eleitorado esse muito exposto à manipulação dos media»???
Não sei o que suporta tal afirmação, mas como cidadão e eleitor do Porto, não lhe dou credibilidade.
A restante análise está coerente e é uma das análises mais imparciais e úteis que tenho lido.

A-24 disse...

Afonso:
Os tipos do Insurgente apesar de serem pró-liberais fazem melhores análises que muitos paineleiros dos jornais e tv's.




A-24 disse...

Johnny:
Creio que se referem ao facto do distrito eleger muitos deputados (39), logo está exposto a mais mediatismo e manipulação dos média. Veja, a titulo de exemplo, o Livre, que não elegeu nenhum deputado teve imenso mediatismo e reportagens nos telejornais, pelo facto de ter feito a campanha praticamente e somente em Lisboa. Tivessem ido fazer campanha para Beja ou para Bragança nunca teriam aparecido na TV

Jhonny disse...

A-24,

Por acaso o Livre também fez muita campanha no Porto. Tinha sede de campanha na Rua de Cedofeita, no coração da cidade, e estiveram presentes nos diversos eventos da cidade. Contudo notei que não eram levados a sério, pois as pessoas nem aceitavam os panfletos. Aliás em qualquer evento encontrávamos sempre (SEMPRE) BE e Livre. O resultado do BE talvez se tenha devido à incansável presença dos bloquista em concertos, feiras, exposições, eventos desportivos, etc etc. Não havia sítio onde fosse que não tivesse bloquistas a distribuir panfletos e a conversar com as pessoas.