sábado, 17 de outubro de 2015

Reserva mental

Nuno Melo 
Ouvir a representante de um pequeno partido de extrema-Esquerda, feito de uma amálgama de trotskistas, marxistas e leninistas, representativo de 10,2 % dos votos, vaticinar que "o Governo de Passos e Portas acabou", referindo-se à coligação que venceu as eleições legislativas, é penosamente ridículo. Mas perceber que a declaração foi feita à saída de uma reunião com a delegação do PS, que supostamente manteria em simultâneo conversações com o PSD e o CDS, perante o absoluto silêncio de António Costa, revela a reserva mental com que a direção socialista avalia resultados e encena a usurpação do poder que os eleitores lhe negaram.

Recusando acolher nos sucessivos governos que dirigiu, o radicalismo programático e os protagonistas dos partidos à sua esquerda, obreiros em 1975 do tentado PREC (Processo Revolucionário em Curso), o PS ajudou à consolidação do atual regime democrático. Abrindo-lhes agora as portas, para satisfazer a ambição de um só homem, o PS renega 40 anos de património histórico, compromete o futuro do partido e assegura irresponsavelmente a instabilidade do país.
Os partidos têm identidade. Assumem na doutrina e nos programas aquilo que os justifica. A Esquerda, à esquerda do PS, rejeita a União Europeia, o euro, a NATO (contra a qual acabam de anunciar manifestação próxima) e regras básicas das economias de mercado. Traduzem desta forma o que classificam de "política patriótica e de Esquerda".
É por isso que nenhuma solução estável poderá ser encontrada na união entre partidos assim e o PS, que até há pouco se distinguia pelo seu contrário. PREC e 25 de Novembro num só Governo não ligam. E acreditar - ou fazer de conta - que sim, só por anedota ou lirismo. Um lobo será sempre um lobo. A veste de cordeiro não lhe muda a natureza.
Quando no início dos anos 80, António Costa perdeu democraticamente as eleições para a Associação Académica de Lisboa, mas recusou a derrota e se negou a entregar as instalações à lista vencedora, justificando a intervenção das autoridades, o caso poderia explicar-se num eventual excesso pós-adolescente. Que mais tarde tenha questionado a liderança de António José Seguro à frente dos destinos do PS, apesar de duas vitórias eleitorais que avaliou por "poucochinho", sem querer consequência igual para a derrota de 4 de outubro, será problema dos socialistas. Mas que à conta da vontade de ser primeiro-ministro se proponha e ache normal sacrificar Portugal, é que já não pode ser. Não pode mesmo.

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