sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O extremismo laicista

A24: É por isto que os socialistas e demais esquerdalho não têm cura. São negacionistas da realidade, minimizam o sofrimento daqueles, que mesmo sobrevivendo aos ataques nunca mais serão os mesmos. Este fulano é um dos que deveria ter estado fechado no Bataclan na passada sexta-feira à mercê dos terroristas. O Ocidente e os valores porque lutamos agradeceriam. Basta ler o seu último parágrafo e o tal negacionismo casseteiro de quem sempre julga que a sociedade é que é culpada por haver marginais, mais o príncipio naive de que todas as pessoas são boas, para chegar a esta conclusão.

Daniel Adrião  (Militante do PS e promotor do Manifesto "Primárias já!")



O filósofo e activista francês André Glucksmann, que morreu no passado dia 10 em Paris, não viveu os dias suficientes para assistir ao ataque jihadista, que três dias depois vitimou 130 pessoas pessoas na sua cidade, numa versão mais cruenta e sangrenta dos ataques ao Charlie Hebdo ocorridos em Janeiro.
Ainda assim, Glucksmann viveu o tempo suficiente para ver concretizada a profecia do seu premonitório livro Voltaire contra-ataca, editado em Outubro de 2014. Na sua derradeira obra, Glucksmann identifica o islamismo jihadista como uma nova variante do totalitarismo, que combateu toda a sua vida, nas suas diversas formas, desde o fascismo ao comunismo. Em Voltaire contra-ataca, Glucksmann avisava para a emergência de um fundamentalismo islâmico euro-nativo e prestava homenagem ao pensador e filósofo iluminista Voltaire, autor da obra O Fanatismo ou Maomé, escrita em 1736. Esta obra de Voltaire, apesar de ter como principal protagonista um profeta cruel e impostor, não constituía apenas uma crítica ao fanatismo islâmico, mas também ao fanatismo católico, acabando por ser proibida pela hierarquia da igreja católica francesa. 

Na sua obra-prima, Tratado sobre a Tolerância, Voltaire ataca todas as formas de extremismo, a começar pelo extremismo de Estado. "Menos dogmas", apelava Voltaire. E como sublinhava recentemente a organização que se dedica à divulgação da vida e obra do filósofo iluminista do séc. XVIII, a Société Voltaire: "Agora, mais do que nunca, Voltaire é o símbolo para todos aqueles que não aceitam assassinatos religiosos ou que um Deus sirva para justificar massacres".

A pergunta formulada por Voltaire há mais de dois séculos e meio ganha hoje uma insustentável actualidade: "Devemos tolerar os intolerantes, ainda que saibamos que "a intolerância cobriu a terra de chacinas?".
A resposta à pergunta de Voltaire, foi dada esta semana pelo Presidente francês François Hollande, que anunciou um conjunto de medidas sem precedentes, de supressão de direitos, liberdades e garantias, aos suspeitos de fanatismo religioso, em tudo contrários à tradição iluminista e humanista da França.
Depois de pôr em marcha uma operação policial sem precedentes em França, anunciou medidas como a retirada sumária da nacionalidade e a expulsão de França de todos os suspeitos de simpatias jihadistas, sem necessidade de julgamento, ou o encerramento de mesquitas dirigidas por imãs suspeitos de fundamentalismo. Estas medidas constituem uma resposta que até há poucos dias seria liminarmente rejeitada pela generalidade dos partidos franceses, com excepção da extrema-direita.
Que não restem dividas que a cedência à agenda securitária da Front National é a confissão da falência dos ideais fundadores da França moderna, designadamente, o primado das liberdade individuais e do próprio Estado de direito democrático. Com estas decisões a França renuncia à superioridade moral da civilização sobre a barbárie e escolhe travar uma guerra com as mesmas armas dos seus inimigos, respondendo ao extremismo religioso com um extremismo laicista.
Como reflectiu Glucksmann no seu livro Dostoievski em Manhattan escrito na sequência dos ataques às Torres Gémeas: "Ao abolir a diferença entre o tempo de guerra e o tempo de paz instala-se uma violência sem fronteiras – morais, legais, sociais, inclusive, geográficas e estaduais – menos racional do que alguma vez se ousou pensar. Impondo a sua própria lógica de soberania. Apresentando-se como dona e senhora, com Deus ou sem Ele".
Segundo o intelectual francês, que previu uma nova onda de ataques terroristas depois do 11 de Setembro, o que motiva estes jovens fanáticos é a lógica do "mato, logo existo", o prazer tétrico pelo assassinato e pelo homicídio. Porque independentemente do seu credo, aquilo a que verdadeiramente aspiram estes novos terroristas é a que o seu nome fique registado como mártires em alguma página da História por terem arrasado um qualquer símbolo do capitalismo, seja um arranha-céus em Nova Iorque ou uma sala de espectáculos em Paris.

Glucksmann escreveu no seu derradeiro livro Voltaire contra-ataca: "Perante tanta ignorância, perante tantos medos irracionais, perante o regresso das infâmias que acreditávamos enterradas, certas injecções de iluminação volteriana podem ajudar-nos a reencontrar a lucidez e a recuperar o contacto com a realidade."

Tal como Voltaire e Glucksmann nos ensinaram, o melhor antídoto contra todas as formas de totalitarismo e de extremismo, não é a política repressiva do "olho por olho, dente por dente" – que agravará ainda mais a espiral de violência já em curso, transformando a vida de todos nós num inferno securitário, instituindo uma espécie de Estado policial planetário – é antes o combate às profundas injustiças sociais que estão na génese da exclusão e da marginalidade e que constituem a causa profunda de todos os extremismos, "com Deus ou sem Ele".

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