quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O segundo exército da NATO

Leonídio Paulo Ferreira
Com meio milhão de homens em armas, a Turquia continua a fazer justiça ao epíteto de segundo maior exército da NATO. E isso, mais a posição estratégica entre Balcãs, Cáucaso e Médio Oriente, explica a importância do país para a Aliança Atlântica, a qual integra desde 1952. Contudo, não têm sido fáceis as relações com a América, com as diferenças quanto à guerra na Síria a serem hoje fonte de tensão. "As relações entre os Estados Unidos e a Turquia são como um velho casamento, já não há amor", sintetizou há tempos Michael Werz, do Center for American Progress, ao jornal Hurriyet.

Anfitrião da cimeira do G20, Erdogan terá uma oportunidade de ouro para relançar a relação com Obama. Em 2009, era Erdogan ainda primeiro-ministro e Obama acabava de ser eleito presidente dos Estados Unidos, até trocaram visitas. Depois, apesar de outros encontros, como na reunião da NATO no ano passado em Gales, a simpatia recíproca foi desaparecendo, a ponto de Erdogan ter lamentado que já não falavam ao telefone. Por estes dias, a imprensa turca prefere estranhar que Obama tardasse oito dias a ligar para Erdogan e Davutoglu, o primeiro-ministro, a felicitar pelo sucesso das eleições de 1 de novembro, ganhas pelo islamo-conservador AKP.
Ora, as relações pessoais entre Erdogan e Obama só são relevantes na medida em que testemunham a degradação da confiança entre os dois aliados, como mostra um inquérito sobre a imagem da América no mundo realizado pelo Instituto Pew. Só 29% dos turcos terão hoje uma ideia favorável dos Estados Unidos, o que contrasta, por exemplo, com a enorme popularidade da América junto dos sul-coreanos (84%), outro velho aliado militar.
A Coreia vem bem ao caso pois se a "amizade turco-americana data de 1831" com o estabelecimento de relações diplomáticas com o Império Otomano (como nota o site do Departamento de Estado), foi só depois da Segunda Guerra Mundial que a parceria ganhou dimensão, com o envio de tropas turcas para a Península Coreana em 1950 a selá-la com sangue. No cemitério da ONU em Busan, as campas com a estrela e crescente recordam como a Turquia perdeu quase mil soldados numa guerra sob a bandeira das Nações Unidas, mas que na realidade opunha os aliados da América ao bloco soviético. E a guerra prosseguia, quando a NATO aceitou a Turquia, o único membro muçulmano até à adesão da Albânia em 2009.
Foi a cobiça de Estaline, ao reivindicar em nome dos arménios partes da Anatólia, que levou à aproximação entre a Turquia e os Estados Unidos, com Truman a opor-se a quaisquer cedências à União Soviética. Já décadas antes, outro presidente americano, Wilson, tomara posição favorável aos interesses turcos, enunciando nos seus famosos "14 Pontos" o direito destes a ser soberanos apesar do fim do Império Otomano (o que Ataturk conseguiria pelas armas em 1923).
Com a Guerra Fria no seu auge, a Turquia ganhava tal importância que os americanos instalaram no país mísseis com ogiva nuclear. Este armamento fará mais tarde parte da troca feita por Kennedy e Khrushchev para resolver a crise dos mísseis soviéticos em Cuba. Na época, a liderança turca não apreciou e talvez tenha pressentido a perda de importância estratégica, comprovada quando em 1974, punindo a intervenção em Chipre, os Estados Unidos impuseram um embargo de armas ao seu aliado na NATO.
Finda a Guerra Fria, podia prever-se a desvalorização do papel da Turquia numa NATO sem inimigo óbvio, mas tanto no ataque ao Iraque em 1991, para desalojar as tropas de Saddam do Koweit, como em 2001, na intervenção no Afeganistão, os turcos mostraram-se solidários com a América.
As tensões na relação turco-americana reaparecem em 2003, já com o AKP no poder. Na época, nota num recente artigo Soner Cagaptay, investigador do Washington Institute for Near East Policy, os governantes de Ancara "recusaram o trânsito de tropas americanas através do território turco até ao Iraque". Talvez a decisão tenha passado despercebida por outros países da NATO, como a França e a Alemanha, também se terem pronunciado contra o ataque, mas indicava uma tendência para a Turquia se assumir como potência com interesses próprios. Isso voltará a notar-se em 2010, quando a Turquia, então membro não permanente do Conselho de Segurança, votou contra sanções ao Irão por causa do nuclear. Entretanto, também as relações entre a Turquia e Israel se degradaram, o que terá caído mal em Washington, que confiava na solidez da cooperação Ancara-Telavive.
De repente, até no plano político, novos diferendos juntam-se aos velhos. A força do lobby arménio sempre preocupou a Turquia, mas os Estados Unidos passam também a ser criticados por acolher Gulen, o líder islâmico que ajudou à ascensão do AKP mas hoje é inimigo de Erdogan.
Contudo, é a guerra na Síria que alarga o fosso entre turcos e americanos, com os primeiros a porem como prioridades o derrube de Assad e a contenção da expansão dos curdos, enquanto os segundos querem acima de tudo eliminar o Estado Islâmico, contando com as milícias curdas.
Michael Werz desvaloriza as relações pessoais, afirmando na entrevista ao Hurriyet já este ano que depois da saída de Obama os desafios manter-se-ão e ,"quer seja Hillary ou um presidente republicano, é de esperar que a próxima administração americana seja mais dura em relação à Turquia". Eventos como a repressão dos manifestantes em Istambul em defesa do parque Gezi e a passividade perante o cerco a Kobani, na fronteira sírio-turca, danaram a imagem da Turquia.
Com a intervenção russa na Síria, em apoio de Assad, talvez aconteça a reaproximação entre a Turquia e a América. De um lado está uma potência nacionalista, que com Erdogan assume sem pudor o passado otomano, e do outro uma superpotência. Como sublinha Soner Cagaptay, "Ancara deve decidir quanto estômago tem para aguentar a liderança americana e Washington deve decidir quanto valoriza a Turquia como parceiro".

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