domingo, 27 de dezembro de 2015

O judeu eterno

Via Malomil 
Em 10 de Abril de 1945, Henry Kissinger e os seus camaradas da 84ª Divisão chegaram ao campo de concentração de Ahlem. Durante anos, Kissinger nada diria sobre o que viu. A sua presença em Ahlem, de resto, só foi conhecida porque um dos seus companheiros decidiu publicar as fotografias que tirou nesse dia. «Uma das mais terríveis experiências da minha vida», disse na altura em que se soube que estivera entre os escombros do Holocausto.

Semanas depois de ter estado em Ahlem, Kissinger escreveu uma carta de duas páginas sobre a tragédia que presenciou ao entrar num campo em que, dos 850 prisioneiros aí detidos, apenas 35 sobreviveram. Integrada no acervo de documentos e papéis que Kissinger doou à Biblioteca do Congresso, a carta só foi publicada recentemente, na biografia que Nial Ferguson dedicou ao antigo Secretário de Estado norte-americano. Com o título «O Judeu Eterno», foi divulgada há pouco nas páginas do Tablet.


O Judeu Eterno

O campo de concentração de Ahlem foi construído numa colina sobranceira a Hanôver. Está cercado por arame farpado. À medida que o nosso jipe andava por ali abaixo, esqueletos de fatos às riscas aproximavam-se da berma da estrada. Existia um túnel num dos lados da colina onde os presos trabalhavam vinte horas por dia, na semiobscuridade. 


Parei o jipe. A roupa parecia cair dos corpos, as cabeças estavam seguras por uma fina vara, que outrora fora um pescoço. Varas afiladas saíam dos troncos onde antes estavam os braços, e também as pernas eram como varas. E os olhos do homem enevoaram-se enquanto tirava o chapéu antecipando uma bofetada. «Folek… Folek Sama.» «Não é preciso tirares o chapéu, agora és um homem livre.»

Enquanto dizia isto, olhei de relance para o campo. Vi as barracas, observei os rostos vazios, os olhos mortiços. São livres, agora. Eu, com o meu uniforme engomado, eu, que vivi entre a imundície e a miséria, não fui agredido nem pontapeado. Que tipo de liberdade posso oferecer-lhes? Vi um dos meus camaradas entrar numa das barracas e sair de lá com lágrimas nos olhos. «Não entres lá. Temos de os empurrar com o pé para sabermos quem está vivo e quem está morto.»

Isto é a humanidade no século XX. Seres humanos mergulhados num tal torpor de sofrimento que a vida ou a morte, que mexer-se ou estar imóvel são coisas idênticas. Quem está vivo e quem está morto? O homem cujo rosto agonizante me olha esbugalhado no alpendre da barraca ou Folek Sama, que ergue a cabeça e o corpo emaciado? Quem teve sorte, o homem que desenha círculos na areia enquanto murmura «estou livre» ou os ossos que estão enterrados na colina?
Folek Sama, os teus pés foram esmagados, não podes fugir. O teu rosto é o de um homem de 40 anos, o teu corpo não tem idade, ainda que na certidão de nascimento se leia que tens 16 anos. E eu fiquei ali, com as minhas roupas lavadas, e falei-te, a ti e aos teus companheiros.
Folek Sama, toda a humanidade é acusada diante de ti. Eu, o Joe Smith, a dignidade humana, todos te falhámos. Devias ser preservado em cimento no alto desta colina para que as gerações futuras te vissem e meditassem. A dignidade humana, os valores objectivos, tudo se deteve diante deste arame farpado. O que te distingue a ti, e aos teus companheiros, dos animais? Porque é que nós, no século XX, permitimos que fosses como és?
Contudo, Folek, tu és ainda um ser humano. Ficaste defronte de mim enquanto as lágrimas te caíam pela cara abaixo. A seguir, soluçaste histericamente. Continua, chora, Folek Sama, porque essas lágrimas testemunham a tua humanidade, porque as tuas lágrimas serão absorvidas por esta terra maldita, que doravante será sagrada. 
Enquanto neste mundo existir a noção de consciência, irás personificá-la. Nada do que seja feito por ti será capaz de devolver-te o que foste.


Neste sentido, és eterno. 

(tradução de António Araújo)

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