segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Lobo mau

Via Malomil 
O romancista António Lobo Antunes deu uma entrevista. Que foi publicada no último número da revista Visão. Até aqui, não vem grande mal ao mundo. Nem sequer quando profere, a dado trecho, uma opinião pessoal e muitíssima subjectiva sobre a qualidade da sua escrita: «Eu acho que ninguém escreveu em Portugal como eu. Mas é só uma opinião.» Ficam registadas. Ambas, a opinião e a modéstia.

O pior, mesmo do domínio do lastimável, é quando o autor d’Os Cus de Judas se solta inopinadamente e deixa escapar outra opinião. Uma opinião reveladora da sua profunda arrogância narcísica e classista, entranhada até à medula. Afirma o eterno perdedor do Nobel: «todos nós temos uma criada de servir cá dentro, no sentido antigo da palavra, Todos nós somos muito pirosos».
Criadas de servir pirosas… Não é necessário ler o magnífico estudo de Inês Brasão sobre as «criadas de servir» para compreendermos o que foi o tempo das criadas, a dureza das suas vidas. Gerações sobre gerações, milhares de mulheres. Criadas de servir pirosas… decerto com buço, não? Moçoilas semianalfabetas, vindas das beiras longínquas, leitoras de fotonovelas. É esse o estereótipo que António Lobo Antunes mobiliza, o snobismo esplendoroso que vem ao de cima logo que estala a fina camada de verniz do «estou mais à esquerda do partido socialista» ou do «Álvaro Cunhal era um homem irresistível», que «a falar de Bruegel era fascinante». As criadas de servir nunca ouviram falar de Brueghel, obviamente. Eram pirosas, coitadas, umas pirosas devotas de Corín Telhado e de magalas fardados.
Mas há mais, para rematar a barbárie: «fui infeliz durante este governo de direita, os erros, a maneira de falar, a arrogância, a ambição social que se notava naquela gente toda, e nos tipos que estão por detrás… É uma chatice, os alfaiates mudaram isto, porque dantes percebia-se quem eram as pessoas com dinheiro, agora vestem-se todos de igual».
De facto, é uma chatice. Era tudo tão bom antigamente, quando havia respeito nas ruas e a sociedade estava arrumadinha por castas; no tempo saudoso em que pelo brilho dos tecidos e pelo recorte dos fatos se percebia logo quem tinha dinheiro e quem não tinha. Os culpados são, por esta ordem: a democracia política, as benesses do Estado social e a cadeia de lojas Zara. Bom mesmo era quando o trajar, elegante e selecto, dispendioso e elitista, funcionava como uma marca de distinção, uma divisória intransponível de classe e de classes. Agora, nesta bandalheira igualitária, anda tudo nivelado e homogéneo, não se percebe quem tem ou não tem dinheiro. Ora, saber quem ou não tem dinheiro é uma questão decisiva, essencial, uma base imprescindível do convívio humano e do bom funcionamento das instituições e da ordem social. Nesta entrevista, António Lobo Antunes sai da toca, abandona o covil e mostra a sua verdadeira fibra, a massa de que realmente é feito: um homem que convive mal com os outros, sobretudo com os que não sejam da sua estirpe. E, já agora, um homem que convive mal consigo próprio (mas isso é problema dele). Em breves palavras, um ser humano interiormente piroso. Muito piroso.

António Araújo

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