terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

António Costa por entre as ruínas do PS

José Manuel Fernandes

Não duvido que António Costa pode ir salvando a pele, transformando derrotas eleitorais em vitórias temporárias e pessoais. Mas caminha cada vez mais entre ruínas – as ruínas do Partido Socialista.


Um dos comentários mais frequentes na noite das eleições, e nos balanços do dia seguinte, foi o de que António Costa, tendo perdido as Presidenciais, afinal as teria ganho. Pode haver alguma verdade nesta mentira – não é impossível que uma Presidência de Marcelo se revele menos complicada para Costa do que um país ainda mais dividido e extremado depois de uma hipotética vitória de Nóvoa –, mas ela ilude algo de fundamental: a erosão do espaço eleitoral que os socialistas tradicionalmente ocupavam. O PS é cada vez mais uma sombra do que foi.
Nas três últimas eleições presidenciais a prestação dos candidatos da área do PS foi sempre muito fraca – Mário Soares e Manuel Alegre somados ficaram-se pelos 35% em 2006; Alegre sozinho não chegou aos 20% em 2011; e agora Nóvoa e Belém pouco passaram, em conjunto, dos 27%. Se nos recordamos da vitória “poucochinha” das europeias de 2014 (31,5%) e da derrota não tão “poucochinha” de Outubro do ano passado (32,3%), verificamos que o PS não está a conseguir, mesmo em situações muito favoráveis como foram as das eleições de 2014 e 2015, regressar aos resultados antes habituais.
Muito contentes com a “geringonça” que lhes permite estarem na cadeira do poder, os socialistas parece não se aperceberem de como, também eles, estão a sofrer uma erosão, porventura irreversível, da sua base eleitoral. E digo também eles pois o declínio eleitoral dos partidos socialistas, trabalhistas e social-democratas é, um pouco por toda a Europa, uma tendência que, eleição após eleição, se parece acentuar. Ora essa erosão, mais uma vez posta a nu nas eleições de domingo, não devia ser iludida. Mas não: como justamente assinalou Francisco Assis num artigo no Jornal de Notícias, o PS vive num estado de ilusão. Eu até acrescentaria de embriaguez.
Devo dizer que não é só o PS. Boa parte dos comentários proferidos na noite eleitoral reproduzem essa ilusão, acrescentando-lhe uma outra: a de que o bom resultado da candidata do Bloco de Esquerda, Marisa Matias, seria um enorme problema para o PCP e uma ajuda para o PS, pois o Bloco estará mais comprometido com o Governo do que os comunistas. É mais outra falácia: sendo certo que o resultado de Marisa incomoda, e muito, o PCP, a verdade é que esse resultado mostra que, ao mesmo tempo, o Bloco está a consolidar uma base eleitoral significativa e que isso, como sempre, está a ser feito feito à custa do PS.

A rivalidade, nas bancadas mais à esquerda do Parlamento, entre o “mata” do PCP e o “esfola” do Bloco não resulta de uma luta directa pelo mesmo eleitorado, como inúmeros estudos têm demonstrado. Sociologicamente estamos perante duas bases eleitorais muito diferentes, culturalmente perante realidades que quase não se tocam, pelo que nunca foram, nem são, significativas as trocas de voto entre o PCP e o Bloco. Exactamente o contrário do que se passa, sempre se passou, e vai continuar a passar quando pensamos no Bloco e no PS. Como disse o cientista político Pedro Magalhães numa entrevista já antiga ao jornal I, “quando perguntarmos em que outro partido poderia votar para além do seu, verificamos que há eleitores do PS que podem votar BE e eleitores do Bloco que admitem votar PS”.
Nessa mesma entrevista, citando os mesmos estudos pós-eleitorais, esse conhecido especialista em sondagens dava uma outra informação crucial – e surpreendente: em termos de políticas económicas, o eleitorado mais liberal é o do Bloco. Em concreto, “o eleitorado do BE é mais liberal, no sentido económico do termo, que o eleitorado do CDS”. 

É um posicionamento de que esse eleitorado não tem consciência, a maioria dos analistas políticos ainda menos, mas que no fundo traduz a base sociológica do partido, que é mais urbana, mais instruída e tem um rendimento mais elevado da média dos eleitores dos outros partidos, mesmo dos mais à direita. Também por isso é um eleitorado flutuante, sendo que os seus altos e baixos afectam sobretudo o PS (mas não só).
Tudo isto ocorre num quadro em que o fascínio em torno das “três meninas” do Bloco (Catarina Martins, Marisa Matias e Mariana Mortágua) obscurece algo que quase ninguém parece querer ver: o seu discurso vincadamente populista. De novo só Francisco Assis colocou o dedo na ferida, no texto que já citei: “O Bloco de Esquerda vai progredindo à custa de um discurso muito perigoso. Está transformado no mais populista dos partidos portugueses.”
Tem toda a razão. É o Bloco que faz o discurso contra a classe política, ao mesmo tempo que se apresenta com puro e imaculado. É o Bloco que arrisca tudo ao não votar o orçamento rectificativo. É o Bloco que vai sempre pelo caminho mais fácil e popular de apontar o dedo aos outros, sendo que, na linha do Podemos espanhol, já começou a adoptar o discurso inflamado (e rasteiro) contra “a casta”. Experimentem colocar as palavras de Marisa ou de Catarina na boca de alguém menos bem parecido e verão como essas mesmas palavras vos soarão diferentes – e como tresandarão a pura demagogia.
Ora aqui os problemas agravam-se para o PS pois este não só teve, ao longo dos últimos anos, um discurso muitas vezes indistrinçável do do Bloco, como alguns dos dirigentes que António Costa promoveu foram os expoentes desse radicalismo verbal e ainda hoje mantêm o mesmo registo. 

Volto por isso a Assis que, depois de considerar que o discurso do Bloco tem de ser combatido, constata que “esse combate político não pode ser levado a cabo por quem se deixou inocular por um vírus de idêntica natureza”. Está naturalmente a falar para dentro do seu partido e está a antecipar o que virá a seguir: os eleitores, perdidas as balizas que sinalizam onde está o realismo e a sensatez e onde começa a demagogia e o populismo, confrontados com a lua de mel da “geringonça”, facilmente serão tentados a preferir o original à cópia. Ou seja, a optarem o Bloco, mais genuíno, desengravatado, fresco e, já agora, com as suas “três meninas”, a um PS velho e dividido, com um discurso muitas vezes contraditório e que corporiza todos os tiques dos partidos que se aproveitam do poder para proveito próprio.
Nada disto deveria surpreender-nos. Olhando para o que se está a passar por essa Europa fora, verificamos que não são poucos os exemplos de partidos moderados que, acossados pelos populistas, julgaram que, adoptando o seu discurso e algumas das suas bandeiras, poderiam resistir-lhes melhor, para depois serem levados com a enxurrada e reduzidos à mínima expressão eleitoral. O destino de um PS incapaz de combater o doce veneno do discurso bloquista pode ser o mesmo.
É por isso que devo discordar e considerar que Marisa não fez apenasm nem sobretudo, uma boa campanha, como se diz por todo o lado – Marisa o que fez foi explorar demagogicamente todos os temas que foram sendo atirados para a ribalta, fazendo-o com êxito pois ninguém tinha coragem de a contrariar. Pelo contrário.
Aqui há uns anos ouvi António Costa, num Congresso do PS, fazer um bom discurso em que alertava para os perigos destes discursos radicais, mas isso é passado. O Costa de hoje desarmou ideologicamente o seu partido, permitindo que as Marisas deste mundo entrassem quase sem resistência pelo eleitorado do PS adentro. Talvez pense que se for dando umas entrevistas ao Financial Times ganha o tempo suficiente para, numa posição de força, voltar a encostar o Bloco às cordas. Corre o risco de se enganar dramaticamente, como a sucessão de maus resultados dos últimos anos apontam em sentido contrário. Como ainda se viu no último domingo.
Não duvido que António Costa pode ir salvando a pele, transformando derrotas eleitorais em vitórias temporárias e pessoais. Mas caminha cada vez mais entre ruínas – as ruínas do Partido Socialista.

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