sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

CURITIBA: UMA CRÓNICA DE JOSÉ LUÍS PEIXOTO

José Luis Peixoto 

Estava arrumada, à minha espera: apresentava uma temperatura amena, uma claridade amena, um olhar sem maldade. Assim, naquela calma de domingo, pareceu‑me uma cidade para dias tão largos como as suas ruas e avenidas. Consegui imaginar‑nos a envelhecer juntos, a dividirmos fins de tarde. Consigo ainda imaginar‑nos. Nada menos do que esse compromisso me parece digno de uma seriedade como a que vejo em ti. As propostas indecentes estão fora de questão.

Repito o teu nome em silêncio, os meus lábios a moldarem‑no, ouço‑o na cabeça com uma voz que imagino ser tua. Como quando esse nome foi dito pela primeira vez, em tupi ou em guarani, e alguém lhe avaliou a justiça, procurando entender se dizia todo o futuro que era capaz de conceber. Cheguei já nesse futuro. No entanto, sei que há mais futuro ainda. Ao concebê‑lo, sinto falta dele, sinto saudades porque sei que terei de partir. E afasto esse pensamento.


Curitiba, empresta‑me algum do teu urbanismo. Preciso dele para me endireitar. Às vezes, o trânsito que me atravessa confunde‑se e ninguém é capaz de chegar a parte alguma, construí demasiados muros, demasiados becos, falta‑me um sistema funcional de transportes.
Sim, a Ucrânia, a Polónia, a Itália, a Alemanha, mas também o Brasil. Apesar de todas as fronteiras, visíveis e invisíveis, aqui é esse Brasil sem Copacabana, sem Amazónia, sem acarajé. Porque o Brasil também é camisola de lã, carne de onça, empate a zero do Clube Atlético Paranaense na Arena da Baixada. E se for feriado na Ucrânia, haverá muitas casas deste Brasil onde não se esqueceram as danças certas para essa celebração, onde os trajes tradicionais são usados por gente loura que almoçou picadinho.

Apesar de todas as fronteiras, visíveis e invisíveis, aqui é esse Brasil sem Copacabana, sem Amazónia, sem acarajé. Porque o Brasil também é camisola de lã, carne de onça, empate a zero do Clube Atlético Paranaense na Arena da Baixada.
Estava arrumada, à minha espera, com uma espécie de sorriso tímido em tudo: nas fachadas dos edifícios, nas cores, no breve silêncio que se podia distinguir entre as vozes dos passeios, prudentes e cordiais, entre os carros da estrada, cumpridores e com bons travões. Era uma cidade penteada, de rosto lavado e angústia subtil.
Talvez eu devesse ter desconfiado dos bigodes do Paulo Leminski, sujos de aliterações. Talvez eu devesse ter desconfiado das suas fotografias impressas na capa dos livros. Poesia como essa precisa de matéria rugosa, madrugadas de tempestade, ossos, alguma falta de civismo. Não há luz sem sombra.
Ainda assim, consegui imaginar‑nos a envelhecer juntos. Tinha acabado de chegar e faltava‑me o mal‑estar de procurar defeitos, precisava descanso dessa viagem que continuava a estender‑se a cada passo que dava. Agora, consigo ainda imaginar‑nos a envelhecer juntos. Com essa força, Curitiba, prefiro encher a boca de vogais. Digo: Paraná. Aproveito essa liberdade inocente, como se cantasse o teu hino.
E baixo as pálpebras sobre os olhos para sentir este sol, que é ligeiramente quente e fresco ao mesmo tempo. Como se te recordasse, devolvo a serenidade com que me olhas. E, neste dia largo, nestas ruas e avenidas também largas, imagino que somos noivos, que estamos noivando, que sabe tão bem noivar.

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