sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Ganhar um marido, perder a adolescência

A24: Os muçulmanos fazem isso mas também os georgianos, que são de algum ramo cristão. Toda e qualquer cultura conservadora, prima pelos mesmos métodos, uns de forma mais violenta e establecida por lei, outros de forma mais suave.

Público 
Uma rapariga de vestido branco dança em frente à sua casa. As lágrimas escorrem-lhe pelo rosto, enquanto se despede da sua família e do sítio onde cresceu. Tem 17 anos e prepara-se para ir para o seu casamento, onde irá encontrar o seu futuro marido, que conheceu semanas antes, no dia do noivado. A partir daí, já não irá continuar a estudar. 














A fotógrafa Daro Sulakauri foi convidada para este casamento quando passava pela aldeia Cachétia, na Geórgia, país onde nasceu. Não só fotografou os noivos, como tentou falar com eles e perceber como é que eles se sentiam. Apesar de o casamento precoce ser uma situação que lhe era familiar na sua infância, começou a perceber que hoje em dia a tradição se mantém. “Lembro-me de ver as minhas colegas de escola a casarem-se quando eu tinha apenas 12 anos, mas isso já foi há muito tempo. Só quando comecei a fotografar é que percebi que ainda existem muitos casos de casamentos precoces”, conta Daro, em resposta por email ao PÚBLICO.



Em 2014, começou a série fotográfica Deprived of Adolescence, de modo a explorar os sentimentos da noiva e a sua posição face à situação. Mas nem sempre o trabalho corre bem. Não só os maridos ou futuros sogros das noivas não permitem que Daro tire fotografias à rapariga ou até fale com ela, como as próprias noivas mantêm uma postura acanhada, sorrindo e falando pouco. “Esta é uma das razões pelas quais estou neste projecto há mais de um ano. Às vezes demoro três a quatro meses apenas para encontrar alguém para fotografar.” De acordo com Daro, a Geórgia tem um dos níveis mais altos na Europa de casamentos precoces, correspondente a 17%. No ano académico de 2011/2012, aproximadamente sete mil raparigas com idades entre os 13 e 15 anos desistiram da escola. Apesar de o Governo não possuir informação sobre quais as razões para estes abandonos, um representante dos direitos humanos afirmou que 341 raparigas deixaram os estudos para se casar. Várias organizações tentaram que o Governo de Geórgia declarasse formalmente o casamento precoce como uma violação dos direitos humanos. Contudo, o Estado ainda não empreendeu nenhuma acção e a sociedade ou não sabe ou não se interessa pelo problema. 





Grande parte destes casamentos são planeados pelos pais sem o consentimento da rapariga. “Depende da situação da família e do grupo étnico da rapariga. Em algumas aldeias, ela tem de casar logo após deixar a escola, caso contrário, é considerada velha para um futuro casamento”, diz Daro. Segundo a fotógrafa, falta educação no país. É muito difícil mudar tradições, e apesar de algumas não deverem ser alteradas, casar com 12 ou 17 anos deixa cada vez mais de ser uma tradição para ser uma consequência da mentalidade das pessoas. É preciso educar os mais velhos mas essencialmente os mais novos, para que estes possam ver e agir de forma diferente.
Sibila Lind

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