quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Uma anedota de país

 Via O Insurgente

Há muitas páginas escritas sobre a função do riso em situações trágicas. E há quase tantas páginas escritas sobre o que acontece quando a tragédia é o comunismo e os infelizes que o sofrem recorrem ao humor para mitigar o infortúnio. A URSS, onde o género era, com o extermínio, das raras indústrias eficazes, é o caso clássico – e extremo (Como é que lidam com as infestações de ratos no Kremlin? / Põem um cartaz a dizer “Quinta Colectiva”. Metade morre de fome e a metade restante foge num ápice). De 1917 a 1989, produziram-se, no devido anonimato, largos milhares de anekdoty sobre a miséria em vigor e os psicopatas que a impunham (Lenine morreu, mas a sua causa viverá! / Por acaso, eu preferia ao contrário).

No meio da opressão, o contraste entre os objectivos proclamados dos regimes marxistas e os seus grotescos resultados favorece a galhofa melancólica: se rir não é o melhor remédio, é frequentemente o alívio possível. Assim foi na URSS, assim foi nos “satélites” da URSS e nas metástases do Terceiro Mundo, e assim é e será em todas as desafortunadas “experiências” semelhantes. Há meses, a revista New Yorker compilou diversas anedotas representativas da sobrevivência na Venezuela, o farol dos povos do século XXI. Eis uma. Cansado de esperar em fila por alimentos básicos, um homem diz ao amigo que vai matar o presidente Maduro. Horas depois, regressa. “Conseguiste?”, pergunta o amigo. “Não, a fila era ainda maior…”
Um país sabe que iniciou a descida aos abismos sem retorno previsto no momento em que as piadas acerca dos senhores no poder se multiplicam diária e exponencialmente. Um país sabe que caminha para o comunismo sempre que as piadas têm graça. O exemplo português é o mais recente de uma longa série de calamidades históricas. E um dos mais fulminantes: algumas semanas chegaram para que uma maioria parlamentar alucinada, um governo de desavergonhados e a curiosa nulidade que preside ao arranjo nos orientassem rumo ao desastre. Cada dia, enquanto os serviçais da nulidade exaltam o progresso e culpam tudo o que se move pelo atraso, Portugal retrocede um trimestre ou dois, proeza que não tarda a elevar-nos ao glorioso panteão dos indigentes da Terra. O humor, uma óptima resposta e um péssimo sinal, também não tardou.
Um destes dias, o pequeno autarca transformado em Grande Líder por seitas de irresponsáveis naturalmente acrescentou pedagogia ao destrambelhamento económico. Decidido a justificar o saque fiscal para satisfazer clientelas, o dr. Costa recomendou que não fumássemos, não andássemos de carro e não contraíssemos empréstimos. Antes que divagasse contra o álcool, o bife e a água quente, certos cidadãos menos anestesiados criaram no Twitter a conta Costa, Primeiro, na qual se sugeriam novos conselhos de Sua Excelência e inspiraram a proliferação da hashtag #ConselhosDoCosta: “Não gaste de uma vez os 60 cêntimos de aumento nas pensões”; “Poupe no IMI e more numa tenda”; “Ande à chuva de boca aberta”; “Acorde tarde e salte uma refeição”; “Diga sim à eutanásia”; “Aproveite as inundações e desloque-se de canoa”; “Use o Wi-Fi do vizinho rico”; “Trabalhe 45 horas e evite os custos das 35 da função pública”; “Faça xixi no banho e economize no autoclismo”; etc.
E é isto. Encontrámo-nos em via acelerada para o tipo de sociedade em que apenas as graçolas nos protegem da insanidade e da prepotência. Trata-se, claro, de uma protecção em última instância inútil, e em primeira débil: por “violação das regras”, a referida conta depressa desapareceu do Twitter. O comunismo garante a liberdade de expressão, não a liberdade após a expressão – já rezava a anedota, e bem precisamos que as anedotas rezem. (…)

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