sábado, 30 de abril de 2016

"A América extremista"

 Via Delito de Opinião
A política estado-unidense encontra-se numa fase de profunda mudança. Nunca um candidato abertamente socialista havia conseguido a projecção e êxito de Bernie Sanders, e tão-pouco alguém com uma retórica tão brutalmente populista como a de Donald Trump havia desafiado com sucesso as estruturas políticas de poder, inclusive dentro do seu próprio partido, nem sido uma hipótese real de ocupar a Casa Branca. O mais significativo é que o sucesso de Sanders e Trump não é fortuito nem passageiro, antes reflecte grandes transformações que minaram os fundamentos tradicionais da sociedade norte-americana e a sua grande ideia-força: a de uma sociedade de oportunidades, onde o sucesso ou fracasso individual dependem, no essencial, do esforço e mérito de cada um. A nação divide-se de forma cada vez mais profunda, fenómeno que ocorre dentro de todos os grupos étnicos mas que adquire uma intensidade particular na população branca tradicional, afectando sobretudo a sua classe média, composta em grande medida por trabalhadores industriais bem remunerados. Há aparentemente o colapso dessa classe trabalhadora e, em simultâneo, o nascimento de uma nova classe alta. Tal significa uma brecha de oportunidades, que transforma o sonho americano numa frustrante miragem para muitos, e com isso entra em crise a tradicional aceitação e inclusive o enaltecimento das diferenças de rendimento e riqueza. Enquanto predominou a percepção de que a sociedade americana oferecia a todos uma igualdade básica para qualquer um triunfar, essas diferenças foram vistas como legítimas. Ora já não é maioritariamente assim, ainda que a maioria dos estado-unidenses gostasse que fosse. O sonho americano continua forte como desejo, mas já não é reconhecido com um componente real da sociedade. Por isso surge como nunca a denúncia dos muito ricos e as demandas redistributivas de inspiração social-democrata, quer dizer, que tendem a igualar os resultados e não o ponto de partida.

As estatísticas sobre a distribuição do rendimento sustentam esta nova percepção. Depois de um longo período de notável aumento simultâneo do bem-estar geral da população e de igualdade na distribuição dos frutos do progresso, a tendência inverte-se a partir da década de 70; primeiro de maneira pouco evidente, mas depois de forma acelerada, efectivando-se num espectacular aumento das fortunas da elite económica, o famoso 1%, ou ainda o 0,1%, que desde os anos 70 triplicou a sua quota no rendimento nacional. O que torna o facto escandaloso para muito americanos é que coincide com um período de salários congelados ou decrescentes para muitos, facto evidente desde finais dos anos 90 e sobretudo depois da crise financeira de 2007-2008.

Esta é a realidade que dá força aos ataques de Sanders contra os muito ricos e à agitação de Trump contra o establishment; e à denúncia de ambos de uma suposta aliança de Washington (a elite política) com Wall Street (a elite económica e financeira). Tanto Trump como Sanders denunciam a traição das elites, que abriu o país à nefasta concorrência dos produtos importados e também, no caso de Trump, a uma imigração ilegal massiva. Essa traição seria responsável pelo empobrecimento da classe média trabalhadora e, em especial, dos trabalhadores industriais transferidos para profissões inseguras e de menor rendimento. É dessa classe trabalhadora e predominantemente branca, deslocada e ameaçada, que provém o votante típico de Trump - em geral homens brancos de meia idade, com níveis de educação relativamente baixos. No caso de Sanders, o seu apoiante típico são os jovens desse mesmo estrato social, em muitos casos filhos dos primeiros.

O mais provável é Clinton ser a candidata democrata e, eventualmente, derrotar Trump, que ao mesmo tempo que agremia abstencionistas perde votos republicanos para a abstenção e parte do eleitorado moderado flutuante para a rival. Ainda que assim seja, as sementes do populismo e do radicalismo em ambos os partidos estão lançadas. Em suma, o futuro dos Estados Unidos não parece nada risonho; mas tão-pouco o nosso. O regresso dessa grande potência à velha política de auto-isolamento e proteccionismo, caminho para que ambos os extremos parecem apontar e que perdurou até à sua entrada na Segunda Guerra Mundial, seria uma tragédia para todos.

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