segunda-feira, 18 de abril de 2016

Os efeitos do excesso de trabalho nas pessoas e na economia

A24: Muito importante!

Francisco Ferreira da Silva

Há mesmo doenças provocadas pelo excesso de trabalho, como é o caso da síndrome de Burnout.
O Japão está a dizer adeus à cultura de longas horas de trabalho com o apoio do primeiro-ministro. A notícia surgiu esta semana no Financial Times (FT) e pode deixar perplexo quem pensa que o alongamento das horas de trabalho favorece as empresas e a economia. Ora, os japoneses concluíram precisamente o contrário após muitos anos desta prática. Porquê? Porque a taxa de desemprego subiu inesperadamente e as vendas no retalho caíram pelo segundo mês consecutivo, lançando nuvens negras sobre a recuperação económica que é a grande aposta do governo japonês.
"Muitas horas de trabalho seguidas por longas noites de copos com colegas de trabalho tornaram-se uma imagem de marca do Japão", diz a notícia do FT. Mas esta cultura tem sido responsabilizada por vários males do país, "desde a diminuição da natalidade à produtividade sem brilho, enquanto o mercado de trabalho apertado está a mudar o equilíbrio de poder das empresas para os trabalhadores", acrescenta o articulista japonês. Há mesmo doenças provocadas pelo excesso de trabalho, como é o caso da síndrome de Burnout. O FT refere ainda o falhanço de tentativas anteriores para resolver o problema, assim como a existência de mortes por excesso de trabalho e o sentimento de culpa de quem sai mais cedo do local de trabalho.
Este é um problema que também aflige uma parte importante da sociedade portuguesa, sobretudo quem trabalha no sector privado. Em termos oficiais até nem estamos muito mal classificados pelo ranking do número médio de horas trabalhadas da OCDE relativo a 2013, onde surgimos acima da maior parte dos países mais desenvolvidos como a Holanda, Alemanha, França, Noruega, Dinamarca, Suíça, Suécia, Áustria, Luxemburgo ou Reino Unido. O Japão tem, segundo a OCDE, um registo pouco superior ao nosso em média de horas trabalhadas. Entre os países que trabalham, oficialmente, mais horas que nós estão a Irlanda, Grécia, Hungria, Israel, Turquia, Rússia e México.
O problema é que, como todos sabemos, em Portugal a maior parte das horas trabalhadas a mais não são contabilizadas nas estatísticas, o que também acontece, naturalmente, no Japão. A questão é que as autoridades japonesas estão atentas e têm vontade de corrigir a situação e em Portugal quase não se fala do problema, a não ser entre colegas de trabalho e, sobretudo, em ambiente familiar, onde as pessoas muitas vezes quase não se encontram. Muitos portugueses estão a colocar o trabalho acima da família, ficam sós e acabam por alimentar a cadeia de excesso de trabalho ao obrigarem outros a acompanhá-los nas ‘vigílias' laborais.
Esta questão pode ser determinante para o futuro do nosso país a vários níveis. Por um lado, para dinamizar a natalidade, uma vez que as pessoas passarão a ter mais tempo para a família e para acompanhar os filhos. O mercado de trabalho também deverá ganhar maior dinâmica pela criação de novas ocupações ligadas à cultura, lazer e tempos livres. O desemprego terá, assim, motivos para diminuir e, tal como o governo japonês antecipa, será normal que o consumo aumente. E, o que é igualmente importante, embora menos valorizado, poderá melhorar o panorama da saúde mental no nosso país e evitar a emigração de muitos portugueses, designadamente os mais jovens e mais qualificados, em busca de melhores condições de vida.

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