domingo, 1 de maio de 2016

"Costa irá provocar eleições"

José Antonio Saraiva 


António Costa, na liderança do Governo, tem vindo a comportar-se como um equilibrista: ora se inclina para a esquerda, para agradar a gregos, ora se inclina para a direita, para agradar a troianos.

Numa semana vai a Bruxelas tranquilizar as instituições europeias, na semana seguinte vai à Grécia solidarizar-se com Tsipras.
Nesse equilibrismo, Costa tem uma vantagem sobre Passos Coelho: como as medidas que implementa ou anuncia são populares - aumentos de ordenados, diminuição de horas de trabalho, devolução de taxas, etc. - não enfrenta contestação nas ruas.
Tem garantida a paz social (até porque a esquerda que o apoia é que controla os sindicatos).
Além disso, também conta com uma certa complacência dos jornalistas, que na sua esmagadora maioria são de esquerda.
Apesar dos arrufos com o BE ou com o PCP, o principal problema do Governo não é político.
Como tenho vindo a escrever, o problema de António Costa é económico e financeiro.
Quando começarem a sair os números é que vão ser elas, pois a bota não vai bater com a perdigota.
Ou seja: os números do Governo vão revelar-se errados.
Por uma razão principal: porque o Orçamento foi feito com base num determinado crescimento, e este vai ficar muitíssimo longe do previsto.
Basta pensar que no Programa Eleitoral do PS constava um crescimento do PIB de 3,1%!
Depois, este número baixou mais realisticamente para 2,6% - e agora está em 1,8%.
Acontece que a União Europeia prevê 1,6%, o Banco de Portugal 1,5%, o FMI 1,4% e a Universidade Católica 1,3%.
Muito provavelmente, o crescimento vai ser menos de metade do que o PS prometia.
Este é o aspeto mais surpreendente da atual situação, pois toda a estratégia socialista assentava na aceleração do crescimento económico.
O ‘crescimento económico’ era a receita milagrosa que os socialistas contrapunham à ‘austeridade’ da direita.
Ora, depois de tudo o que foi dito, depois de todas as medidas tendentes a estimular o consumo, vamos afinal ter um crescimento igual ou inferior ao dos tempos da austeridade (1.5% no ano passado).
Parece mentira, mas arrisca-se a ser verdade.
E o mal não tem remédio à vista, porque o investimento também não arrancou e vai ficar muito longe do esperado.
De facto, será muito difícil encontrar quem queira investir num país cujo Governo depende de dois partidos hostis ao capital privado, e onde se fala abertamente de reestruturação da dívida e até de saída do euro.
Um país cujo primeiro-ministro vai a Atenas declarar expressamente solidariedade ao Syriza.
É óbvio que os investidores torcem o nariz.
Quando se tornar claro que todas as metas vão falhar e a Europa começar a exigir novas medidas, o primeiro-ministro vai começar a pensar em eleições.
Porque concluirá que, com os atuais parceiros, nunca conseguirá cumprir os critérios europeus.
Aproxima-se o momento em que Costa perceberá que não é possível satisfazer as exigências de Bruxelas precisando do apoio do PCP e do BE.
Portanto, não será a oposição a derrubar o Governo: será o próprio António Costa a romper a coligação.
Para isso só terá de descobrir o momento propício.
Depois, trata-se de saber o que acontecerá a seguir.
Tenho para mim que o Bloco de Esquerda será o futuro parceiro dos socialistas, estando para o PS como o CDS está para o PSD.
O BE será no futuro ‘o CDS do PS’.
O Bloco gosta do poder - e isso vê-se na cara de Catarina Martins.
Além disso, com pouca penetração no mundo operário e nas autarquias, a influência do Bloco de Esquerda só pode fazer-se a partir do poder.
Praticamente esgotadas as ‘causas fraturantes’, o BE já não tem muito para dar que não seja servir de muleta de esquerda ao Partido Socialista.
O que implica mudar um pouco a sua estratégia: publicamente barafustará, mostrar-se-á muito agressivo, mas no silêncio dos gabinetes aceitará o que for preciso.
Aliás, é o que faz o Syriza de Tsipras.
Diferente é o caso do PCP.
Os comunistas sentem-se desconfortáveis nesta situação, como é visível pela expressão de Jerónimo de Sousa.
E ao contrário do BE, o PCP pode ir exercendo a sua influência através das câmaras municipais, através dos sindicatos, através das comissões de trabalhadores, etc.
O Partido Comunista tem condições para continuar a existir fora do poder, como sempre existiu.
Resumindo, comecemos a preparar-nos para eleições.
E quanto mais cedo elas forem, melhor será para o PS e o BE, pois ainda não estará tão à vista o fracasso desta política.
O PSD é que não tem nada a ganhar com a aceleração do calendário eleitoral.
Por isso, Passos Coelho se mostra tão calmo.
P.S. - O falhanço do acordo no BPI permite três conclusões:
1. Não é pelo facto de o Governo se envolver em negócios privados que as coisas se resolvem;
2. Metendo o nariz onde não são chamados, o Governo e o PR enfraquecem-se quando as coisas correm mal (como foi o caso);
3. Este episódio vai afetar as relações entre Angola e Portugal, o que não aconteceria (ou aconteceria menos) se o poder político se tivesse mantido afastado do problema.
Espero que o BPI sirva de lição a Marcelo e António Costa.

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