terça-feira, 24 de maio de 2016

Ilusão de óptica

A24: Muito interessante

Luis Naves in Delito de Opinião

Escrevo antes de ser conhecido o resultado das presidenciais austríacas, mas o candidato da extrema-direita, Norbert Hofer, tem ligeira vantagem antes da decisiva contagem dos votos por correspondência, que será feita hoje. Na rádio pública, de manhã, ouvi o historiador Rui Ramos a falar sobre o tema, fazendo uma amálgama de nacionalistas e defendendo a tese de que a eventual vitória de Hofer confirma a tendência já visível em outros países. Para o autor, Hungria, Polónia ou Áustria fazem parte do mesmo movimento populista-nacionalista*.

A explicação nacionalista para este empate eleitoral é um mito confortável, que nos impede de perceber o carácter inédito da possível vitória de Hofer. Seria a primeira vez que um candidato da extrema-direita vencia uma eleição na Europa a nível nacional. Hofer já é notícia: mesmo que perca, o que é mais provável, esteve demasiado perto de vencer. A extrema-direita finlandesa (Partidos dos Finlandeses) ficou em segundo lugar e está na coligação de governo; o Partido Popular dinamarquês ficou em segundo e apoia o governo; há exemplos de partidos de extrema-direita com 10, 12, 15% dos votos, mas até agora nenhum deles venceu eleições nacionais.


Em Portugal, o jornalismo continua a não compreender que Polónia e Hungria são governadas por conservadores que já antes estiveram no poder. O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán (lidera o Fidesz) não tem nada a ver com a extrema-direita, representada por um partido chamado Jobbik, que está na oposição e que Orbán mantém fora do alcance de qualquer influência. A identidade entre os dois é um erro de análise.
Felizes por não compreenderem isto, os média portugueses estão agora a alimentar um curioso mito paralelo sobre a Polónia, fazendo a amálgama entre conservadores-católicos do partido no poder (que já governou em meados da década de 2000) e a extrema-direita europeia. Polónia e a Hungria contestam ruidosamente as quotas obrigatórias de refugiados, mas invocam a lei (a regra não existe nos Tratados europeus). Os dois países são apoiados pela Eslováquia e República Checa, cujos governos de esquerda nunca foram diabolizados, embora sejam semelhantes aos seus vizinhos.
A extrema-direita europeia (por exemplo, AfD alemã, DPP dinamarquês, FN francesa, Partido da Liberdade austríaco ou Partido Popular suíço) contesta a política de imigração e o multiculturalismo, baseia a ascensão eleitoral na péssima integração das comunidades muçulmanas, mas até agora não chegou ao poder em nenhum destes países. Se Hofer vencer, será a primeira vez que a extrema-direita ganha uma eleição importante e qualquer analogia com o leste é pura ilusão de óptica.

Actualização: Hofer foi derrotado pelo candidato da esquerda, Alexander Van der Bellen, eleito presidente da Áustria por 34 mil votos. Nunca um candidato de extrema-direita esteve tão perto de ser eleito num país europeu. A coligação do Governo, um bloco central entre cristãos-democratas e social-democratas, terá dificuldade em sobreviver até ao final de 2018, quando termina a legislatura. A extrema-direita conseguiu metade dos votos e o Partido da Liberdade, FPO, a que pertence Hofer, tem condições para vencer legislativas antecipadas. Aliás, quanto mais tempo se mantiver este bloco central fragilizado, com um primeiro-ministro não eleito, mais hipóteses a extrema-direita terá de vencer.

*É outra conversa, mas não deixa de ser curioso perguntar se Angela Merkel e François Hollande não são nacionalistas? Não defendem primeiro os interesses dos seus países? Há nacionalismo bom e mau, forte e fraco? Onde está a fronteira? Aliás, de que nacionalismo se fala aqui, ou estamos a confundir o conceito com defesa da soberania? O referendo do Brexit é bom, mas se a Hungria referendar as quotas obrigatórias de refugiados, isso já é mau?

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