sábado, 21 de maio de 2016

Lenine já pode regressar a Berlim

Público 
O que faz a cabeça de Lenine em Berlim, separada do corpo e com uns ferros a sair-lhe do crânio, tendo à sua volta vizinhos tão estranhos como o corpo decapitado de Frederico Guilherme II da Prússia, o monarca que mandou edificar a Porta de Brandemburgo no final do século XVIII, ou um quase completo Frederico, o Grande ao qual falta apenas um negligenciável braço?



A resposta chama-se Enthüllt, uma palavra alemã traduzível por “descoberto”, “revelado” ou “destapado”, e que é o nome da exposição permanente agora inaugurada na Cidadela de Spandau, em Berlim, uma bem preservada fortaleza renascentista hoje transformada em museu. Dezenas de estátuas que outrora se ergueram orgulhosamente em parques e alamedas, e que foram sendo removidas à medida que a sucessão de regimes políticos transformava os antigos heróis em alvos a abater, foram agora desenterradas (em muitos casos, literalmente) e reunidas no museu de Spandau, que as limpou e restaurou, mas não quis reconstruí-las.
A nova exposição permanente da Cidadela de Spandau – que se ergue numa ilha localizada na confluência dos dois rios que atravessam Berlim, o Havel e o Spree – foi inaugurada no dia 29 de Abril e é já um dos pontos obrigatórios do roteiro turístico berlinense.
A monumental cabeça de Lenine, esculpida em granito, pesa quatro toneladas, e se é uma das atracções principais do conjunto, é também uma das mais recentes peças expostas. Nada mais restou da estátua de 19 metros de altura que se erguia em Berlim Oriental, na praça Lenine (hoje Praça das Nações Unidas), e que foi desmantelada dois anos após a queda do Muro de Berlim. Salvou-se esta cabeça, que esteve anos enterrada num bosque. Em Spandau, está agora deitada sobre uma das faces, acentuando a ideia de um poder caído.
Mas uma parte significativa das estátuas expostas data ainda da era imperial, como o importante conjunto que veio da antiga Siegesallee (Avenida da Vitória) que atravessava o centro de Berlim e era adornada por 32 estátuas em mármore de grande dimensão, retratando figuras históricas da realeza prussiana, cada uma delas rodeada por dois bustos, num total de nada menos do que 96 monumentos.
Um projecto concebido pelo último imperador alemão, Guilherme II, que resolveu oferecer a Berlim esta espécie de passerelle da história prussiana, que envolveu 27 escultores e demorou seis anos a realizar, entre 1895 e 1901, quando foi inaugurada. Já na época não faltaram críticos a ridicularizar a pomposa grandiosidade do conjunto, e o imperador foi mesmo alcunhado deDenkmalwilly, mais ou menos traduzível por Guilhermezinho dos Monumentos. E à sua Avenida da Vitória chamaram a Avenida das Bonecas, embora a única figura feminina ali retratada fosse Isabel da Baviera, dita a bela, que viveu no início do século XV e que aparece figurada de joelhos, rezando diante do marido.

Com o fim da I Guerra e a implantação da República prussiana, muitos exigiram a destruição das estátuas, mas as autoridades de Berlim decidiram mantê-las. E quando os nazis chegam ao poder, também as preservaram, mas transferiram-nas para outro local da cidade, no parque Tiergarten, onde Hitler inaugurou a Nova Avenida da Vitória. O objectivo era libertar a antiga para os grandiosos projectos arquitectónicos de Albert Speer.
Várias estátuas seriam depois danificadas, ou mesmo completamente destruídas, pelos bombardeamentos da II Guerra, mas ainda assim, tendo em conta o cenário de devastação que a rodeava quando o conflito chegou ao fim, a Avenida da Vitória foi surpreendentemente poupada. O que não lhe valeu de muito, já que os Aliados viram naqueles marmóreos monarcas um símbolo das ambições imperiais alemãs e as forças de ocupação britânicas desmantelaram, em 1947, o que restava da Avenida da Vitória de Guilherme II.
Por intervenção do fotógrafo e pintor Hinnerk Schaper, que tinha então a tutela dos monumentos na administração berlinense, a maior parte das estátuas que restavam foram enterradas nas proximidades, junto ao Palácio Bellevue, hoje residência oficial do Presidente da República alemão. Desenterradas e redescobertas em 1979, estiveram vinte anos no entretanto encerrado museu Lapidarium, no bairro berlinense de Kreuzberg, até serem finalmente transferidas para a Cidadela de Spandau, onde, assim amputadas, como muitas estão, provavelmente parecerão hoje, na sua decaída dignidade, bastante menos ridículas do surgiram aos olhos dos berlinenses que assistiram à inauguração da Avenida da Vitória em 1901.
O subtítulo da exposição agora inaugurada é Berlim e os seus Monumentos. Mas podia bem ser sic transit gloria mundi.

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