quarta-feira, 18 de maio de 2016

Porque os países do Ocidente evitam criticar a Arábia Saudita?

Direita Política 


A execução, pela Arábia Saudita, de 47 pessoas acusadas de terrorismo, entre elas o clérigo xiita dissidente Nimr al-Nimr, provocou reprovação de parte da comunidade internacional e deflagrou um conflito diplomático com o Irão.
Governos de potências ocidentais, como o dos EUA, questionaram as execuções, mas organizações de direitos humanos alegam que esse questionamento foi muito menos enfático do que seria se as execuções tivessem ocorrido em outro lugar que não a Arábia Saudita.
Mais: o Conselho de Segurança da ONU divulgou comunicado sem mencionar as execuções, mas apenas condenando os ataques contra instalações sauditas no Irã que ocorreram em represália às mortes.
Isso contrasta com a resposta do Irão, o principal rival xiita do reino saudita (sunita), que foi contundente ao rechaçar a execução do clérigo al-Nimr, o que acabou motivando o rompimento das relações diplomáticas entre os países.

Violações de direitos e wahabismo

Organizações e especialistas vieram a público defender a necessidade de o Ocidente criticar a Arábia Saudita com maior ênfase.
Citam como motivo as violações de direitos humanos praticadas por esse país do Golfo Pérsico – a Anistia Internacional apontou dez tipos de violações – e a submissão enfrentada pelas mulheres no país.
A Arábia Saudita é o único país do mundo em que mulheres não podem conduzir. Elas também estão submetidas a um sistema de tutela que as obriga a pedir autorização a homens para praticamente tudo.
Especialistas também mencionam o wahabismo – a ideologia que o reino saudita também exporta, além do petróleo – como motivo de condenação.
Religião oficial Arábia Saudita, o wahabismo é uma forma rígida e conservadora do islamismo. E alguns afirmam que é o “pai ideológico” do grupo autodenominado Estado Islâmico e, anteriormente, da Al-Qaeda.
Governantes sauditas investiram milhões de dólares nas décadas de 1960 e 1970 em campanhas educativas, construção de mesquitas e impressão do Corão. Criaram ainda a Universidade de Al-Madinah para que graduados de todo o mundo pudessem estudar a religião e depois disseminá-la em seus países.
Tudo com o objetivo de promover o wahabismo no mundo.
Há quem diga que a Arábia Saudita, ao exportar o wahabismo, ajudou grupos extremistas a recrutar voluntários.

Velhos aliados

Ainda assim, o Ocidente é tímido quanto a criticar o reino saudita.
“O Departamento de Estado (dos Estados Unidos) divulgou uma declaração sobre as execuções, especialmente a do clérigo. Não foi forte como poderia ter sido e dura como se esperava”, afirmou Perry Cammack, analista do Fundo Carnegie para a Paz Internacional, sediado nos EUA, à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
Para o especialista, a reação moderada se deve aos vínculos entre Washington e Riad.
“É mais natural que um país seja crítico em relação a essas coisas quando está em confronto com a nação em questão, mais do que quando se trata de criticar um parceiro estratégico com quem mantém relação próxima há décadas”, disse Cammack, em referência à relação entre EUA e Arábia Saudita
O analista sugere, contudo, a possibilidade de que Washington tenha levantado a voz nos bastidores da diplomacia.
“Há muitos assuntos sobre os quais os países não se entendem”, disse Cammack.
Apesar disso, a Arábia Saudita continua sendo a principal aliada no Oriente Médio não apenas dos EUA, mas do Ocidente, que facilita e apoia sua influência na região.
Segundo especialistas, essa é uma das razões pelas quais o mundo ocidental não critica o reino com contundência.

Petróleo, dinheiro e armas

Mas também há outros motivos. Para Mariano Aguirre, director do Centro Norueguês para Construção da Paz, há diversos interesses comuns que explicam esse comportamento.
Em primeiro lugar, diz, está a condição de país exportador de petróleo da Arábia Saudita, que durante décadas liderou as vendas mundiais do produto.
Essa riqueza permitiu, de acordo com Aguirre, que Riad se convertesse em um grande investidor nos centros financeiros mundiais, como Londres.
“Isso acarretou um forte clientelismo no setor financeiro internacional, que persiste até hoje”, disse.
O especialista lembra também que a Arábia Saudita é um dos principais compradores de armas do mundo, tanto dos EUA como da Europa Ocidenta.
Apesar de actualmente conviver com um déficit orçamentário preocupante para os mercados, o país também se converteu em fonte de oportunidades para o capital internacional, ao incentivar a construção de grandes obras de infraestrutura, com impostos baixos e mão de obra barata e proibida de se sindicalizar.
Sob o ponto de vista geopolítico, diz Aguirre, a Arábia Saudita é vista como uma grande aliada do Ocidente desde a Revolução Islâmica no Irã, em 1979.

“Parte insignificante”
A ausência de condenação às violações de diretos humanos no regime do rei Salman bin Abdulaziz também tem relação com o peso reduzido desse tema na agenda internacional, criticam organizações do setor.
Esse histórico, aponta a Anistia Internacional, vai além da discussão sobre a pena de morte.
“Há poucos países com tantas violações de direitos humanos graves como a Arábia Saudita e que, ao mesmo tempo, são tratados com tanta benevolência por parte da comunidade internacional”, afirmou Esteban Beltrán, diretor da seção espanhola da Anistia.
A organização aponta a prática, na Arábia, de dez tipos de violações graves aos direitos humanos, como aplicações de penas cruéis e desumanas, discriminação sistemática da mulher e emprego de leis antiterror para perseguir defensores de direitos humanos.
O representante da ONG lamenta que os direitos humanos ocupem uma parte insignificante das declarações de países europeus quando o tema é Arábia Saudita.
“No caso dos países da União Europeia, muitas vezes eles deixam que a Comissão Europeia (órgão executivo do bloco) faça essas declarações, para que nenhum país em particular apareça fazendo a crítica”, afirma. 

Outro motivo de controvérsia é o facto de a Arábia Saudita ocupar um dos 47 assentos no Conselho de Direitos Humanos da ONU, onde também preside um dos painéis mais importantes.

3 comentários:

Ricardo disse...

Como demonstraremos ao longo deste ensaio,a política externa dos Estados Unidos visa essencialmente perenizar a hegemonia americana,sem rival desde o fim da Guerra-Fria,e impedir o aparecimento de concorrentes geoeconómicos,princípalmente da Rússia e da Europa Ocidental.Está portanto em grande parte voltada contra os interesses das nações europeias.Conscientes de que um europa forte e independente estaria à altura de ultrapassar os EUA em todos os campos de poder,nomeadamente o económico,os estrategas americanos querem a qualquer preço evitar o mínimo despertar,matar no ovo a mínima veleidade de autonomia europeia,no caso de que alguns dirigentes mais lúcidos decidissem organizar uma Grande Europa Continental,reconciliando os seus "dois pulmões",ortodoxo e ocidental.Daí a vontade americana de enfraquecer e diliuir o continente europeu incluindo-em nome da OTAN-a Turquia na União Europeia(nota:estas linhas foram escritas em 2001)e por consequência afastando-a ainda mais da Rússsia(daí que a Rússia se virou para a China e os Brics),a fim de que a constituição de uma Grande Europa Continental independente e forte(ao contrário do que é a actual UE em 2015),susceptível de fazer concorrência aos Estados Unidos nunca veja o dia.Estratégicamente a Europa arrisca-se a pagar muito caro a factura da "ocidentalidade"(mais americana que europeia)e a Taxa estratégica do "Atlantismo",simples máscaras do seu enfeudamento aos Estados Unidos:dividida internamente,cortada em dois por uma nova "cortina de ferro" civilizacional e sócio-económica,e presa por tenazes entre um Sul islâmico radical e vingativo e um "Ocidente" americano hegemónico destruidor de identidades,a Europa não parece pronta para afrontar os sérios desafios do séculoXXI que podem muito simplesmente fazê-la desaparecer enquanto civilização plurissecular se não reagir muito depressa.(texto retirado de "Guerras Contra a Europa,livro de 2001)---do post com o mesmo titulo no meu blog

A-24 disse...

Sem dúvida. Para mim e para qualquer pessoa lúcida, a Europa ganharia muito mais em estreitar laços com os "irmãos" russos, do que estar a ser chantageada por turcos, árabes e norte-africanos. Um exemplo da prova que os EUA querem destruir a Europa, é volta e meia rebentarem tudo no médio oriente para depois atacarem a Europa de terroristas e refugiados. Poucos conseguem ver isso, mas é o que tem acontecido nos últimos anos, e no dia em que for o Egipto, o Irão ou a Nigéria (países super-populosos) a caírem na desordem, então não sobrará nada para os Europeus. Outra prova da estupidez europeia é aceitar uma NATO com os EUA e a Turquia, quando poderia fazer isso ela própria, não com um exército europeu apátrida mas sim com os esforços de todos os países europeus. Uma boa Uniao Europeia seria essa, não a actual, que alimenta há décadas parasitas alógenos que depois vão conspirando e terrorizando contra ela. É por isso que sou a favor do Brexit, porque não foi esta UE que os europeus desejaram mas é com esta UE que nos tornamos presas fáceis de qualquer chantagista geopolítico.

Bilder disse...

E há mais implicações(já evidentes)preocupantes https://chiefio.wordpress.com/2016/05/19/end-of-germany/ neste link há videos a não perder para quem quer entender(em inglês,talvez mais tarde se encontre tradução com legendas) o que está a acontecer na Europa a nível demográfico e de imigração/refugiados.