quarta-feira, 4 de maio de 2016

"Quando chegares à Velha Europa, amor"

A24: Uma excelente reflexão sobre a UE e o futuro.

Via Estado Sentido 
Praga, Abril de 2016. Uma das cidades europeias que menos danos sofreu durante as duas Guerras Mundiais, grande centro cultural do Velho Continente, terra de Kafka e de Dvorák, postal de arquitectura conservadora, resiste imóvel e impávida ao frio primaveril e ao vento que sopra forte nos edifícios. Os turistas passeiam, fotografam o relógio astronómico sem especiais cuidados com carteiristas, insignificantes delinquentes num País que vive a paz e o cosmopolitismo europeu. De repente, um quiosque improvisado ostenta bandeiras da Ucrânia e da NATO, caricaturas de Vladimir Putin e frases que são bombas-relógio. "Putin, hands of Ukraine". "Putin is the Devil". Os rostos dos manifestantes não são pacíficos. O Secretário-Geral da NATO, depois de reunir com representantes da Rússia, anunciava o caminho feliz das negociações: há esperança num futuro pacífico. Nas ruas da Europa Central, fora dos circuitos turísticos, sente-se o contrário. Sente-se o fio de pólvora. E da paz podre.


Enquanto os líderes europeus negoceiam, os povos falam como podem. Como em 1991. Há 25 anos, enquanto os líderes da Europa comunitária se sentavam para elaborar o Tratado de Maastricht, rebentava a luta pela independência na Eslovénia e na Croácia. E o Tratado que anunciava paz e prosperidade para todo o sempre na Europa acabaria por ser assinado no ano seguinte, de braço dado com o início da guerra na Bósnia. Passados 25 anos, a União Europeia não tem mãos a medir com tantas crises. A moeda única, os refugiados, a Síria, a Ucrânia e a omnipresente Rússia, a quem o Velho Continente ofereceu um gás metafórico em 2008, na Geórgia. A união da União, por outro lado, vai sendo ameaçada pelo Reino Unido, mas permanece. Mas Espanha tem a Catalunha. E a Bélgica, pacemaker das Comunidades, vive permanentemente sob a ameaça da secessão. A unidade europeia assegura-se pelo paradoxo que é ter medo do passado e amnésia.
A União Europeia, Nobel da Paz em 2012, anuncia-se como o garante da paz e da estabilidade no Continente, um papel assumido desde 1992, conquistado graças à queda da União Soviética e ao desinteresse americano, e perdido em 2008, graças aos conflitos na Ossétia do Sul e à crise financeira internacional. E os europeus do pós-Segunda Guerra, em negação, vão acreditando na resolução dos problemas. No regresso do crescimento económico, na resolução dos conflitos militares e migratórios que temos por temporários. E continuam a fingir que a Alemanha tem capacidade para manter a União.
Em 2016, em Praga como em Kiev ou em Sarajevo, a Europa aquece, num lume brando que nos vai fazendo ferver. Até ao dia em que Franz Ferdinand deixe de ser só uma banda charmosa de escoceses para passar a ser o nome do arquiduque assassinado em 1914 que devemos relembrar. Até ao dia em que a Alemanha entre na sua própria crise económica. Até ao dia em que os conflitos internos dos Estados-membros se tornem mais do que referendos. Até lá, Barack Obama vai pedindo à Europa que permaneça "forte e unida", como um tonto pede a um careca que se penteie.
Quando chegares à Velha Europa, amor, tira uma foto com um bom compositor, como na canção. É o que podemos ir fazendo para manter as aparências.

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