segunda-feira, 6 de junho de 2016

Estado, Estado, Estado

José António Saraiva 


A quem cabe assegurar a saúde dos cidadãos? Naturalmente ao Estado. E deve fazê-lo de forma universal e gratuita. Mesmo as pessoas que possam pagar devem, de acordo com a esquerda, ter acesso gratuito a todos os cuidados médicos. E, na Saúde, o Estado não pode poupar um tostão - sob o risco de ser acusado de contribuir para a morte de cidadãos (como sucedeu no caso do jovem que teve um AVC num fim de semana).
A quem cabe assegurar a educação dos cidadãos?
Naturalmente ao Estado, que deve fazê-lo igualmente de forma universal e gratuita. E que, segundo a extrema-esquerda, podia muito bem dispensar o ensino privado.
A quem compete assegurar a Justiça?
Naturalmente ao Estado, porque é o único árbitro que tem condições para ser isento.
A quem compete assegurar a segurança dos bens e das pessoas, e a ordem pública?
Naturalmente ao Estado, porque só o Estado deve deter a possibilidade intervir pela força.
A quem cabe assegurar os transportes?
Naturalmente ao Estado - e, segundo a esquerda, em terra, no mar e no ar. Por isso mesmo, este Governo anulou vários concursos públicos já realizados de privatização de transportes urbanos, e reverteu a privatização da TAP.
A quem cabe controlar as empresas estratégicas, desde a eletricidade, às águas e às telecomunicações?
Naturalmente ao Estado, diz a esquerda, pois sem isso o Governo não dispõe de meios para intervir nos respetivos setores. Por isso, o PCP e o BE foram contra a privatização da EDP e da PT, e não aceitam a privatização das empresas de distribuição de água.
A quem cabe controlar a banca?
Naturalmente ao Estado, dizem igualmente o PCP e o BE, visto que é um setor estratégico. E, nessa medida, para lá de exigirem a continuação da CGD 100% pública, defendem a nacionalização de toda a banca.
A quem cabe controlar os seguros?
Naturalmente ao Estado, pela mesma razão.
A quem compete regular o setor dos media?
Naturalmente ao Estado, que por isso tem uma estação pública de rádio e TV, que lhe permite atuar diretamente no setor.
A quem cabe assegurar o investimento?
Em primeiro lugar ao Estado - diz a esquerda -, pois se o Estado não mostrar que acredita no país quem irá acreditar?
A quem cabe assegurar a todos os cidadãos condições mínimas de sobrevivência?
Naturalmente ao Estado, por isso existe o rendimento mínimo garantido.
O Estado, o Estado e o Estado. Para a extrema-esquerda - e alguns setores do PS próximos dela, que se fortaleceram com esta solução de Governo - o Estado deve ser o proprietário de quase tudo; e, naquilo em que não mande, deve poder meter o nariz à vontade.
Ora isto, a acontecer, teria desde logo um pequeno problema: a partidarização total da vida do país.
Nós vemos o que acontece quando o Governo muda: rolam cabeças, encaixam-se os boys, os critérios de confiança política sobrepõem-se aos da competência.
Imaginemos então o que aconteceria se o Estado mandasse em tudo…
Seria o regabofe.
Além disso, a experiência mostra-nos que as empresas públicas têm uma tendência irreprimível para o prejuízo.
As estações privadas de TV, por exemplo, têm de dar lucro - mas a RTP pode dar constantemente prejuízo.
Imagine-se o que seria alargar ainda mais o perímetro de intervenção do Estado.
Seria a ruína.
Há ainda outra questão. Confesso que estou nos antípodas do que o PCP e o BE pensam sobre o assunto: sou um liberal, defendo um Estado mínimo e uma sociedade civil forte. Incomoda-me a presença do Estado em tudo.
Mas independentemente do que cada um de nós pensa, há uma realidade que se impõe e que é esta: num mundo cada vez mais globalizado, Portugal só poderá safar-se se for competitivo.
Dito de uma forma simples: se conseguir exportar muito.
Caso contrário, estará sempre a endividar-se.
Mas, como quem exporta são as empresas e não o Estado, Portugal deveria estar hoje a aligeirar os serviços públicos e a diminuir os encargos sobre as empresas - tentando ao mesmo tempo atrair investimento estrangeiro, porque sem capital não há empresas.
Sucede que, por força dos acordos feitos por António Costa com o PCP e com o BE, Portugal está a fazer precisamente o contrário: privilegia a oferta pública, quer empolar alguns serviços, aumenta os impostos e agride certos interesses privados.
Ou seja: Portugal está a caminhar no sentido oposto ao que seria necessário para ser viável.
Por este andar, Portugal não terá qualquer hipótese de sobrevivência no mundo global.
Não acredito que Marcelo Rebelo de Sousa (apesar do que diz) e o próprio António Costa (que não é burro) não tenham percebido o buraco em que estamos metidos - e não estejam a pensar no modo de sair dele.
Costa sabe muito bem que os acordos que fez com a extrema-esquerda impedem a modernização do país e o condenam a não ser competitivo. Não é por acaso que o PCP e o BE são contra a globalização, a União Europeia e o euro (ver foto).
Neste momento, Portugal só tem dois caminhos: ou sair da UE e regressar ao escudo (com a extrema-esquerda e os setores esquerdistas do PS a liderar, assumindo uma vocação terceiro-mundista), ou continuar na UE e aceitar a globalização. Mas, para isto, é preciso inverter rapidamente a marcha.
Os números já começaram a sair - e os avisos já começaram a chegar

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