sexta-feira, 17 de junho de 2016

Leitura dominical

Alberto Gonçalves via O Insurgente
(…) Não se trata de uma especificidade territorial: caso os alvos fossem minhotos ou algarvios, ribatejanos ou beirões, tenho a certeza de que a reacção seria semelhante. É o velho chavão do “Quem não se sente não é filho de boa gente”, que por cá atravessa geografias. Em Portugal, quase todos os progenitores devem ser gente maravilhosa e impecável, já que quase todos os filhos passam a vida a sentir-se, além de que sentem com impressionante intensidade. Desde que, falta acrescentar, se sintam contra um alvo isolado ou fácil.

Não é por nada, mas os valentes portugueses que despejam indignações em cima do Henrique ou do sr. Cid parecem-me, assim por alto, os mesmos que toleram, quando não aplaudem, tudo o que de facto importa. São os mesmos portugueses que acham normal, ou desejável, o PS costurar uma tramóia “constitucional” para tomar o poder e subordiná-lo a estalinistas ou aparentados. São os mesmos portugueses que acham razoável, ou, a acreditar nas sondagens, espectacular, que o governo recupere o prodigioso legado económico de José Sócrates, agora sob orientação sindical e com adornos “fracturantes”. São os mesmos portugueses que acham adequado, ou louvável, que um balão sorridente disfarçado de primeiro-ministro brinque com as organizações internacionais que, em última e penúltima instâncias, nos têm aguentado uns furos acima da Roménia. São os mesmos portugueses que acham correcto, ou excelente, o uso das escolas públicas para perpetuar as desigualdades e alimentar a obediência do bom povo. São os mesmos portugueses que acham normal, ou oportuno, que um rapazito que vê na iniciativa privada um sintoma do Terceiro Mundo esteja no Parlamento e não no hospício. São os mesmos portugueses que acham razoáveis, ou “giras”, propostas legislativas que deixam as crianças mudar de sexo e os idosos serem abandonados. São os mesmos portugueses que acham compreensível, ou fabuloso, que uma deputada denuncie os inimigos da “laicidade” e a discriminação dos gays enquanto exalta a mesquita que os contribuintes pagarão em Lisboa. São os mesmos portugueses que acham pertinente, ou radiosa, a nova mesquita de Lisboa.

Os insubmissos portugueses submetem-se, mudos ou felizes, a um presidente que confunde a função com um circo de irresponsabilidades. A polícias que lhes explicam o sistema de multas criado para os pilhar. A “estadistas” que os “aconselham” a andar de autocarro, ou a pé, ou de jumento. A sindicalistas que escarnecem diariamente do seu trabalho. A tiranetes colocados em cada esquina ou ministério. E, nas próximas semanas, ao fervor patriótico da selecção da bola, para gritar “Portugal! Portugal” e ignorar que o país verdadeiro se afunda sem remédio.
Filhos de boa gente e de quem calha, os portugueses sentem-se. O problema é que, com as prioridades do avesso, sentem-se mal. E não tarda vão sentir-se pior. (…)

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