domingo, 10 de julho de 2016

Em dia de final do Europeu, convem recordar

Via Futebol Magazine 


Durante décadas vendeu-se a história de que o terceiro lugar de Portugal no Mundial de 1966 foi uma surpresa total e absoluta no mundo do futebol. Não foi. Portugal superou as expectativas, sim, mas para as casas de apostas antes do torneio os “Magriços” partiam na lista de favoritos. 

A exagerada saga dos Magriços
Eram outros tempos, a verdade tinha um peso diferente e as lendas escreviam-se conforme as convenções. Portugal chegou viu e quase venceu o Mundial de 1966 e a gesta dos “Magriços” foi vendida como uma história de superação de uma nação “orgulhosamente só”. Portugal, na estreia numa competição internacional, chegava ao terceiro lugar e isso era, sem dúvida, motivo de orgulho nacional. Mas de celebrar um pódio a transformar a gesta numa luta constante contra gigantes, qual D. Quixote do futebol de então, vai uma imensa distância. Para um país que vivia numa mentira constante montada por um imprensa desenhada a lápis azul, todas as noticias que chegavam eram, precisamente, de histórias e relatos de superação. Portugal estava, ao parecer, destinada a uma missão gloriosa mas sempre partindo como o “underdog”. Primeiro era o “grupo da morte”, quando o conceito não existia ainda – seria inventado em 1986 pelo seleccionador uruguaio – e depois a inesperada reviravolta contra os norte-coreanos até esbarrar contra a “Pérfida Albion” num jogo que teve tudo de amateurismo e ingenuidade administrativa. Mas esse relato esconde a verdade e a crua realidade. Portugal não era o máximo favorito ao titulo, nem sequer para terminar no terceiro lugar. Mas ao contrário de uma lenda tão lusitana, era sem dúvida um dos candidatos a surpresa do torneio e a alcançar, como mínimo, as meias-finais. Como sabemos isso? Por culpa do contexto futebolístico, naturalmente, mas também pelas casas de apostas da época. 

Como as casas de apostas previram o êxito luso
O negócio das casas de apostas começou a regularizar-se nos anos cinquenta e na década de sessenta já estava intimamente associado ao mundo do futebol. Entre outras coisa a Taça das Taças nasce por influência de duas casas de apostas inglesas, a Ladbroks e a Joe Coral, que procuram a possibilidade de haver mais jogos entre semana para os clientes apostarem. Uma iniciativa que encontrou eco em vários dirigentes federativos que se uniram para dar inicio ao torneio em 1960. Nessa altura já o governo britânico tinha aprovado uma lei que regulava as apostas desportivas e o fenómeno tinha-se estendido com naturalidade por toda a Europa.
Para o Mundial de 1966 as principais casas de apostas inglesas fizeram a sua própria lista de favoritos entre os dezasseis participantes tendo por base os resultados anteriores, prestigio e qualidade de cada colectivo. Eram o verdadeiro barómetro futebolístico da época e um bom ponto de partida para entender, antes de uma competição, por onde podem vir as apostas seguras nos ganhadores ou onde estão as potenciais surpresas. Naturalmente entre o prestigio internacional e os resultados nos anteriores mundiais, os brasileiros eram o primeiro favorito em todas as casas, seguidos, imediatamente pelos organizadores. A imensa maioria de todos os que antecipavam o sorteio sonhavam com uma final Inglaterra vs Brasil e o volume de apostas nas principais casas para ganhar o Mundial foram feitos a esses dois candidatos absolutos. Os brasileiros tinham um ratio de 5/2 e os ingleses de 9/2, ambos com uma distância considerável dos seguintes candidatos. O grupo onde estava Portugal. 

Entre os favoritos ao pódio
Antes de subir ao avião rumo a Londres, Portugal não podia ser outra coisa que não um dos favoritos a surpresa do torneio. Era uma potência indiscutível do futebol continental. Nos seis anos anteriores futebol luso tinha conquistado três titulos europeus de clubes – duas Taças dos Campeões Europeus pelo Benfica e uma Taça das Taças, pelo Sporting – num onze que era essencialmente dominado pelos dois gigantes de Lisboa. Contava com aquele que era, unanimemente á época, considerado o melhor jogador do futebol europeu – Eusébio – e depois de seis anos de presenças regulares em finais europeias, os portugueses eram vistos como experimentados em torneios de máxima exigência. Contavam ainda com um grande seleccionador, um homem respeitado nos dois lados do Atlântico, Otto Glória, e uma linha de ataque forte o suficiente para fazer temer qualquer defesa.
Em contrapartida, é certo, contra Portugal jogava o fantasma de nunca ter participado em nenhum torneio internacional. Nem nos dois Europeus disputados antes, em 1960 e 1964, nem em nenhuma edição do Campeonato do Mundo. Mas sendo o torneio na Europa, o que retirava da equação a dificuldade de adaptação que os europeus sofriam sempre que saíam rumo á América do Sul, e sendo o Benfica um dos quatro grandes clubes á época em toda a Europa, a par do Real Madrid e dos grandes de Milão, Portugal estava logicamente no grupo de perseguidores aos dois máximos favoritos.
Tanto a Ladbroks como a Joe Coral colocavam Portugal no quinto e sexto lugar, respectivamente, das suas apostas como potenciais vencedores. A Ladbroks indicava que os argentinos – que tinham vencido os ingleses meses antes e eram vistos como um rival temível – e os italianos surgiam á frente de Portugal. No caso dos especialistas da Joe Coral, os lusos caiam ao sexto lugar, com um ratio de 16/1, atrás de russos, argentinos e italianos. Entre o prestigio dos sul-americanos e da Itália que tinha dominado o futebol europeu nos três anos anteriores, sem esquecer o papel sempre importante dos russos, campeões da Europa em 1960 e vice-campeões continentais em 1964, os apostadores colocavam Portugal. O tal país que o Estado Novo vendeu como um candidato sem grandes possibilidades de brilhar, salvo por milagre, algo alimentado pela imprensa, estava á frente em todas as listas de paises como a Espanha – campeões da Europa em 1964 e com vários jogadores do Real Madrid, o mais recente campeão da Taça dos Campeões Europeus – da França, da Hungria ou da própria Alemanha, que fechavam o top dez nas listas de ambas casas de apostas. Para não falar da distância sideral – Portugal partia com um 16/1 enquanto que chilenos ou uruguaios chegavam a Inglaterra com um 60/1 – com todos os restantes participantes. 

O resultado que todos esperavam menos o Estado Novo
No final, partindo desta base que foi aquela que a imensa maioria dos adeptos, á época, assumia como a mais lógica para entender o que vinha aí, Portugal era o grande candidato a qualificar-se em segundo lugar no seu grupo, atrás apenas do todo poderoso Brasil e de chegar, pelo menos, até aos quartos-de-final. Nem os bulgaros nem os húngaros eram vistos como rivais á altura dos lusos e no entanto a vitória contra ambos, nas jornadas inaugurais do grupo, foram transformadas em epopeias pelo regime salazarista.
O triunfo espectacular, esse sim, contra o Brasil, reforçou o estatuto que Portugal já trazia e deixava claro que os apostadores tinham sobrevalorizado uma selecção que necessitava de uma mudança de guarda urgente e que tinha padecido em excesso as lesões de Pelé, que não teve um torneio á sua altura pela segunda edição consecutiva. O duelo contra a Coreia do Norte, uma história épica de recuperação in extremis graças, sobretudo, a um só homem, é também uma bela saga lusa mas que parte de uma vitória sobre a equipa que menos probabilidades tinha de vencer o torneio ou, sequer, de qualificar-se, a Coreia do Norte, que chegou a esse Mundial com uma opção de 500/1. Portugal estava obrigado a vencer esse jogo e se sofreu trinta por uma linha para o lograr deveu-se mais á falta de preparação táctica e aos erros do sector defensivo do que a uma obra de epopeia futebolística, o que não invalida a grande exibição individual de Eusébio.
Quando chegou a altura de defrontar a Inglaterra nas meias-finais, país que tinha eliminado a Argentina, que era a terceira favorita para os apostadores, estava claro que o jogo disputado finalmente em Wembley – por falta de poder de influência de organização da federação lusa – iria dar origem ao campeão já que eram as duas selecções, entre as sobreviventes do inicio do torneio, melhor posicionadas para o vencer, segundo a Joe Coral Booking. Já a Ladbroks apostara primeiro nos soviéticos que acabariam por cair contra os alemães no outro jogo, disputado em Birmingham, alemães que, eles sim, foram a verdadeira surpresa do torneio e não Portugal como todas as casas de apostas deixaram claro antes do arranque da competição. 

A falsa cultura de superação nacional
No final Portugal cumpriu com os prognósticos – perdeu apenas com um dos rivais melhor cotados e venceu, na fase de grupos, estando já apurada, outro dos candidatos – e terminou num memorável terceiro lugar. Mas cumprir com os prognósticos originais de um torneio, desde um ponto de vista neutral onde se eliminam quaisquer considerações nacionais, não justifica a criação de uma mitologia como a que surgiu á volta dos Magriços e que apenas se entende pela natureza mitificadora do regime político vigente. A Portugal não era o terceiro lugar, esperado por muitos, no Mundial de Inglaterra que se podia citar como resultas surpreendente mas sim os seus anteriores e subsequentes falhanços em classificar-se tanto para Campeonatos do Mundo como da Europa. De todas as nações com clubes vencedores de provas europeias nos anos sessenta, Portugal foi, de longe, aquela que piores resultados a nível de selecções obteve nesse mesmo período. A única ocasião em que esteve á altura dos pergaminhos que se esperavam deles foi precisamente no torneio em que um país quis acreditar que se tinha alcançado uma meta que era praticamente impossível. Hoje, como ontem, a história volta a repetir-se.

Sem comentários: