sábado, 23 de julho de 2016

Holodomor

"A Ucrânia — a palavra em ucraniano quer dizer ‘Terra de Fronteira’ — é um país na charneira da Europa Central com a Rússia. Recuperou a sua independência no desfazer da União Soviética e, nessa ocasião, trocou o azul e encarnado com a estrela, a foice e o martelo, de bandeira da República Socialista da URSS, pela bandeira azul e amarela.


O azul significa o céu, o amarelo o trigo das estepes, símbolo da terra fértil que faz da Ucrânia o celeiro do império russo. Com este passado parece absurdo que, há precisamente oitenta anos, no Outono-Inverno de 1933, o país e o seu povo tivessem sido vítimas de uma das mais terríveis fomes do século XX.
Holodomor — ‘morte pela fome’ — foi assim que ficou conhecida essa terrível praga que matou cerca de sete milhões de pessoas. Mas como é que uma região riquíssima agricolamente — antes e depois (hoje é um grande exportador de cereais) — chegou aí?
Os responsáveis são dois — um sistema de ideias e um homem — o colectivismo socialista e Estaline. Os princípios marxistas-leninistas de desenvolvimento económico, implantados depois da revolução de 1917 e da vitória bolchevique na guerra civil, priorizavam a colectivização da agricultura: houve, no princípio, a supressão dos grandes latifúndios, mas em 1922, com a Nova Política Económica, as terras nacionalizadas foram apropriadas às centenas de milhares de kulaks, o nome pejorativo dos pequenos proprietários autónomos que recorriam ao emprego de outros.
Segundo Robert Conquest, no seu clássico The Great Terror, «a colectivização destruiu cerca de 25% da capacidade produtiva da agricultura soviética». Mas na Ucrânia tudo foi pior: as colheitas foram confiscadas para exportação e os produtores e suas famílias deixados morrer à fome. Aqueles que resistiam, escondiam grão ou gado, ou em desespero tentavam subtrair alimentos das granjas colectivas, eram presos, enviados para os campos de concentração da Sibéria ou executados no local. Brigadas de comunistas devotos, enquadrados pela GPU (polícia política soviética), percorriam a Ucrânia, saqueando e queimando aldeias, casas e propriedades dos ‘inimigos do povo’.
«Os homens morriam primeiro, depois as crianças, no fim as mulheres», escreveu um contemporâneo. Os poucos documentos fotográficos e fílmicos são tenebrosos.
Foi um caso claro de genocídio deliberado e executado por razões ideológicas e deve ser encarado não apenas como o produto da crueldade racional ou paranóica de um homem — Estaline — mas como o resultado natural de um sistema de ideias de um modelo político-social.
Um sistema que, por todo o mundo do século XX, produziu alguns dos maiores desastres da História da Humanidade. Sete milhões de ucranianos, numa população de trinta milhões perderam a vida. O Governo soviético ocultou o genocídio e para isso teve a cumplicidade não só dos comunistas de toda a Europa, mas também das esquerdas, desconfiadas do que lhes parecia uma campanha reaccionária.
A Rússia era então o único país comunista do mundo. Álvaro Cunhal, o futuro líder do PCP, tinha 20 anos."
Jaime Nogueira Pinto
in "Sol", 22 de Novembro de 2013.

retirado de Dissidente.info, de 2 de Dezembro de 2013.

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