domingo, 31 de julho de 2016

Incirlik

Nuno Castelo Branco 


Que Israel possui uma enorme e ilegal quantidade de armamento nuclear, esse é um segredo tão bem guardado como a inclinação da Torre de Pisa. Nas imediações não existe qualquer outra potência nuclear a não ser o Paquistão, muito mais a leste e que perigosamenteas obteve graças ao beneplácito do nosso aliado americano. Seguir-se-á o Irão, disso já não existe a menor dúvida.


O que era praticamente ignorado pela grande maioria da opinião pública europeia, é a já muito antiga presença de armas nucleares na base americana de Incirlik, ponto essencial de apoio a operações naquela parte do mundo, sejam elas para manter uma vigilância apertada sobre Tartus - uma das três bases com denominadas task forces que os russos mantêm fora das suas fronteiras -, seja para o cada vez mais disparatado apoio a "forças combatentes" no teatro de operações sírio, inclusivamente alguns movimentos que como a Frente al-Nusra são declaradamente anti-ocidentais e muito retintamente suspeitos de parcerias com um Estado Islâmico misteriosamente equipado com armamento alegadamente capturado no Iraque. Nada é por acaso.
Quando da resolução da Crise dos Mísseis de Cuba, Kennedy terá concedido a Kruschev a retirada dos correspondentes americanos plantados na Turquia, no então flanco sul da União Soviética. Foi este um acordo informal e jamais cumprido, uma concessão que salvou a face dos dirigentes do Kremlin, uma troca-por-troca que as superpotências perante o resto do mundo assumiram até à implosão da URSS. Caído o regime comunista vitimado pela sua própria prepotência - nesta se incluindo a desastrosa intervenção no Afeganistão -, vertiginoso despesismo militar, miséria material extensiva a toda a população que não era membro do Partido, procedeu-se a um refluxo das fronteiras controladas pelos russos: saída da Polónia, Checoslováquia, Roménia, Hungria, Bulgária e extinta RDA do Pacto de Varsóvia, ditando o fim do mesmo.

A Rússia regressou aos tempos em que a sua presença territorial se limitavagrosso modo ao traçado anterior ao reinado de Catarina II, a Grande, a alemã Sofia de Anhal-Zerbst que tomou a maior parte da Ucrânia, toda a Bielorrússia, a Lituânia e mais uns tantos territórios no Cáucaso. Permaneceu em actividade a Base de Tartus (Síria) e como apoio logístico a Base de Cam Ranh que já servira a marinha americana no Vietname. As restantes, todas elas situadas em territórios outrora componentes da União Soviética, contam-se pelos dedos de duas mãos e mesmo estas são de vários tipos: as que se encontram na Arménia, Geórgia e Moldávia, contam com forças de intervenção de dimensão apreciável, enquanto as outras contêm essencialmente centros de comunicações e radar. Sebastopol é um caso diferente, pois regressou ao controlo directo de Moscovo e o ocidente deveria estar preparado para reconhecê-lo.

O que sucedeu após o fim do regime soviético? Não só foi o território da RDA incluído no dispositivo militar da NATO - e a Alemanha, procurando dissipar os naturais receios russos, procedeu a um rápido e infeliz desarmamento -, como rapidamente se verificou que os antigos componentes do Pacto de Varsóvia, incluindo os Países Bálticos, foram admitidos um após outro na Aliança Atlântica. Os russos talvez esperassem a criação de uma zona tampão que fosse de Narva a Odessa, mas as expectativas saíram-lhes goradas pelos factos. Um gratutito insulto acompanhado pelo ostensivo desprezo pela psicose de cerco que o Kremlin experimenta uma vez mais. Isto teve claras implicações na forma como as autoridades russas passaram a olhar para ocidente - melhor dizendo, para os EUA -, situação ainda mais premente quando este procedeu a uma política de massive basing nas imediações da Rússia. Neste âmbito, a Turquia era uma peça anterior ao colapso da URSS e por isso, a situação não era para o Kremlin novidade alguma. A Ucrânia é, queiramos ou não, um terreno vedado à NATO.

Algo se passou desde 1991 e não valerá a pena desfiarmos o trágico rosário que é bem conhecido pelos crentes de qualquer missa televisionada até à exaustão. Todos fomos regular e insistentemente enganados nas expectativas e isso causou o ultraje nas mentes de uma imensidão de partidários da Aliança Atlântica. Há humilhações que não se esquecem ou perdoam e esta é uma delas.
Sem sequer considerarmos a hipótese de uma miraculosa conversão russa aos genéricos padrões que vigoram na Europa ocidental ou nos EUA, o massive basingacompanhado pelas catastróficas intervenções no Iraque, Líbia e mais actualmente na Síria, provocaram o gradual aumento da tensão desde o Báltico até ao Golfo Pérsico. O factor determinante que diferencia a liderança russa? Goste-se ou não da personalidade, esta chama-se Putin.

As comicamente denominadas primaveras árabes que de Tunes a Bagdade derrotaram todos os autoritários regimes laicos que tinham nascido após a descolonização, conduziram a Europa a um beco em que ainda hoje se encontra, ainda por cima agravado pela clara subversão interna, esta muito diferente de outras ocorridas nos anos sessenta e setenta, de cariz meramente político. O islamismo definitivamente passou a radical bandeira política eivada de messianismo, esta é a realidade que deveremos em definitivo entender. As responsabilidades são várias e devem ser partilhadas. Do que ninguém tem necessidade, é do acirrar de qualquer situação que possa provocar outros casos de escalada de violência militar na qual a Europa será o alvo que agora se encontra totalmente indefeso. Os países europeus estão mercê daqueles que internamente provocam os tumultos com dizeres "politicamente correctos" e mediaticamente da moda e por outros factores externos e totalmente incontroláveis por Paris, Londres e Berlim: despejar em descarado suborno, montões de dinheiro em mãos tão ou ainda mais corruptas como as dos doadores, é má política. Péssima!

A ser verdade - e é mesmo -, o que ainda estão dezenas de perigosas armas nucleares a fazer na Turquia? Com que fim se justifica a sua presença naquele país que, há que dizê-lo sem rebuços, não é de mínima confiança relativamente àquilo que julgamos ser o padrão político, social e militar ocidental? Este exército turco que na distraída opinião pública europeia passa no teste porque parece ser alegadamente laico, é sem dúvida corruptíssimo e as acusações de roubo, nepotismo, auxílio a terroristas do E.I. que genericamente são feitas a Erdogan e ao seu partido, apenas são possíveis devido à colaboração das autoridades militares que com mão de ferro controlam as fronteiras turcas. É um exército oriental, muçulmano, com isso carregando toda a tralha que a gloriosa história lhe confere. No actual contexto, essas armas nucleares não estão seguras, encontrando-se à mercê de um qualquer golpe de mão.

Quem autorizou os nossos aliados - supondo-se que a Base de Incirlik pertence ao dispositivo da NATO - a ali manter armamento daquele tipo?

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