segunda-feira, 18 de julho de 2016

O golpe que nunca o foi

Diogo Noivo
Na passada sexta-feira, mal soube que havia um golpe de Estado em curso na Turquia, apressei-me a enviar mensagens através de uma rede social aos bons amigos que deixei em Istambul. Não esperava respostas instantâneas. Os meses que passei na Turquia ensinaram-me que a internet local é pouco fiável (este “pouco” é simpatia minha). Se é assim em condições normais, era expectável que, com um golpe de Estado a decorrer, o serviço tivesse sido interrompido. Para minha surpresa, recebi três respostas de imediato. Estavam bem, agradeciam a minha preocupação, mas desvalorizavam as notícias. “Isto tem o dedo do Erdoğan”, escreveu um dos meus amigos. “Não te sei explicar exactamente como o fez, mas isto só lhe interessa a ele”. Todos coincidiam na análise. “Conheces bem este país, por isso dispenso-me a longas explicações. Pensa apenas nisto: temos internet, as rádios e as televisões continuam a emitir e todas as estações passam mensagens de apoio ao Presidente”, escrevia outro. “Neste país sabemos bem o que são golpes de Estado. Isto que está a acontecer é uma treta”.



Boa parte destas amizades foi forjada em 2007. Conhecemo-nos em Istambul, numa conferência por eles organizada sobre política externa e segurança internacional. Por mero acaso, a conferência decorreu no período de campanha para as legislativas desse ano, o acto eleitoral no qual o Presidente turco (na altura, Primeiro-Ministro) consolidou o seu poder a nível nacional. Quando saem os resultados eleitorais, a frustração destes meus amigos era indisfarçável. Nenhum apoiava Erdoğan, o grande vencedor. Com a excepção de dois comunistas, são todos votantes do partido kemalista CHP. Uns por convicção, outros por oposição ao AKP do então Primeiro-Ministro Recep Tayyip Erdoğan.
Eram opções políticas que não escondiam. Aliás, um dos oradores-estrela que convidaram para a conferência era Çevik Bir, General do Exército turco e figura de primeira linha do 'memorando militar de 1997' (mais conhecido como ‘Golpe de Estado Pós-moderno’) que provocou a queda do Governo islamista liderado por Necmettin Erbakan. Quando o conheci, Çevik Bir era um herói nacional, não apenas pela sua participação nos assuntos internos do país, mas pelos cargos internacionais que desempenhou, nomeadamente o comando das tropas da ONU na Somália, no início da década de 1990. Poucas figuras granjeavam tanto respeito público na Turquia como Bir. Na sexta-feira, um dos organizadores desta conferência dizia-me “temos menos liberdade…se fosse hoje, seria impossível apresentar-te ao General Bir”. Este General turco, detido preventivamente em Abril de 2012 pela sua participação no golpe de 1997, é hoje persona non grata para o regime incumbente. 
Recep Tayyip Erdoğan, fundador do partido AKP, ex-presidente da câmara municipal de Istambul, antigo Primeiro-Ministro e actual Presidente, tem vindo a desenvolver um assalto metódico ao poder, no qual o islamismo serve um propósito puramente instrumental. Vale para ganhar votos nas zonas não urbanas (a maior parte do país), serviu para meia dúzia de iniciativas de política externa, e pouco mais. O Presidente turco é um tiranete igual a tantos outros, cujo único objectivo é dispor de um controlo absoluto do poder. O resto são adereços.
Escrevia um dos meus amigos: “vais ver, amanhã dirão que o golpe fracassou, o Erdoğan aparece como herói incontestado e com força para executar mais uma purga, e vai exigir mais apoio político aos Estados Unidos da América e à Europa”. Os turcos são dados a teorias da conspiração. Mas a verdade é que não se enganou.

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