sábado, 6 de agosto de 2016

A crise da Europa. E da democracia

«Há alguns anos, Victor Cunha Rego deu uma entrevista ao "Independente", que nalguns momentos parece ser premonitória. Dizia ele: "A democracia que nós vivemos hoje em dia assenta, praticamente, exclusivamente nas políticas chamadas sociais. É um regime suicidário." Mais: "No momento em que as políticas sociais falharem, a democracia acaba". E Cunha Rego concluía: "Ao contrário da maioria, considero que nós, e quando digo nós não estou a falar só de Portugal, estou a falar da Europa, caminhamos para o fascismo". (…)

O terrorismo vai condicionar cada vez mais as liberdades individuais na Europa, porque a insegurança criada pelos militantes suicidas do Daesh vai manter-se durante anos. Por outro lado, a pressão migratória vinda de África (e há milhões, na zona sub-sahariana à espera de atravessar o Mediterrâneo) vai levar à criação de cada vez maiores barreiras à sua entrada. (…)

O estertor da social-democracia e da democracia-cristã tem muito a ver com a hegemonia da ideologia liberal que saltou da economia para a política criando um vai-vem entre ambas.

As políticas de austeridade, que estão a destruir o que resta da Europa social, caminham no mesmo sentido. E depois há quem se admire com a cada vez maior eficácia de tribunos populistas, de Trump a Boris Johnson, ou mesmo de políticos radicais (como na Polónia ou na Hungria), que vão conquistando os deserdados que ficaram pelo caminho (os párias do sector industrial que perderam os empregos que foram, temporariamente, criados na Ásia e que, a curto prazo, serão substituídos pela robotização, a classe média sufocada por impostos e a perder a mobilidade social, os jovens sem emprego e os mais velhos tementes da sua segurança).

Se juntarmos a isso a incapacidade de a Europa ter uma política de segurança temos o caldo perfeito para um futuro para o qual temos de olhar de óculos escuros. A democracia assentava no contrato social e numa forte classe média que não deseja sobressaltos. Sem as duas coisas começam a ser notórias as tentações da maioria dos povos de seguirem à boleia de quem lhes promete um pouco de esperança. Como dizia Cunha Rego, a Europa caminha para o suicídio. Entre a austeridade e o fim do Estado social. E ainda há quem pareça contente com tudo isto.»

Fernando Sobral

2 comentários:

Bilder disse...

Curiosamente (ou não) são os que "enchem a boca" contra o fascismo que mais contribuem para o seu regresso (pois fascismo de direita e social-fascismo são "faces da mesma moeda"). Isso agrada a certos grupos porque eles buscam a subversão/revolução da sociedade com o objectivo final da tal "sociedade utópica" inevitavelmente totalitária(no caso de serem bem sucedidos bem entendido e a sociedade não voltar ao fascismo de tipo tradicional)

Bilder disse...

A propósito de sociedade utópica (ou distópica): "À semelhança de Joe(que representa o trabalhador industrial americano),milhões de americanos de meia-idade perderam a narrativa da sua vida,sentem-se derrotados,sentem-se a mais.Não por acaso,os EUA estão a ser varridos por uma epidemia de suicídios.A distopia leva ao suicídio e,antes disso,ao voto em Trump.Ora,o eleitorado do "Brexit" é idêntico ao eleitorado do Trump.O norte de Inglaterra está repleto de homens como Joe Six Pack e,sem surpresa,também mergulhou na catástrofe do suicídio"Se à distopia da globalização juntarmos a questão islâmica e o politicamente correcto que vê "racismo" em qualquer crítica aos muçulmanos,ficamos com as causas do voto no "Brexit".O jovem londrino isola-se no seu iphone,no seu mural,nas suas músicas,não vai à igreja e até rejeita a ideia de pátria.Vai mais facilmente a Paris do que a Leeds,despreza os compatriotas do norte e,ao mesmo tempo,aceita a chantagem do politicamente correcto,que considera "racista" qualquer crítica aos muçulmanos.É por isso que desconfio do cosmopolitismo postiço desta geração.Nunca poderemos amar a Humanidade se desprezamos nossos compatriotas."----------do artigo "Suicídios" de Henrique Raposo de 3 de Julho de 2016