quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A Ucrânia procura um novo passado para mudar o presente


Via Público

Nos últimos dois anos, caíram as estátuas de Lenine, mudaram-se nomes de ruas e de cidades e a guerra no Leste já criou os seus mitos e heróis.

A sala do Museu Nacional de História da Ucrânia dedicada à II Guerra Mundial não é muito grande. Mas o espaço é suficiente para encapsular as tensões e a complexidade que envolvem o passado do país. De um lado vêem-se cartazes comemorativos das vitórias do Exército Vermelho soviético sobre a Alemanha nazi e da “libertação” da Europa; do outro, há imagens dos abusos cometidos pelos militares soviéticos sobre as populações pelas quais passaram durante aquela “libertação” aplaudida a menos de três metros na mesma sala; a meio, há um expositor com uma bandeira ucraniana manchada de sangue, usada por grupos nacionalistas durante o conflito, alguns dos quais lutaram ao lado dos nazis. Olena, a nossa guia, desculpa-se: “Estamos a pensar remodelar a forma como a exposição está organizada. Ainda tem muita influência soviética.”
Não é fácil falar do passado na Ucrânia — está demasiado presente. Há ruas e cidades com novos nomes, memoriais em cada esquina, livros proibidos, arquivos abertos, manuais escolares reescritos e novas comemorações públicas.


Desde a independência obtida em 1991 que a Ucrânia travou uma luta contra o próprio passado. Na ausência de clivagens ideológicas semelhantes às da Europa Ocidental, a grande causa mobilizadora do eleitorado “foi sempre a luta pelo passado”, diz o professor de Ciência Política da Academia Mohyla de Kiev, Johann Zajaczkowski. A identificação histórica dos ucranianos parece ter andado nas últimas duas décadas num ziguezague constante, sempre ao sabor de quem estava no poder. “Houve presidentes que tentaram trazer uma narrativa pró-ocidental para a opinião pública; houve outros, como [Viktor] Ianukovich, que tinham uma ideia de uma Ucrânia soviética”, diz o especialista.
Ao seu lado está a colega Daryia Orlova, professora da Jornalismo na mesma universidade, que identifica num sector da população uma “nostalgia” pela União Soviética, “não tanto em termos ideológicos, mas culturais”. De acordo com uma sondagem recente do instituto pró-europeu Democratic Initiatives Foundation, na região do Donbass (leste), 70% da população avalia de forma negativa o colapso da União Soviética, bem acima da média nacional de 32%.
A guerra no Leste, que em Kiev é descrita como uma “agressão russa”, veio mudar tudo. “Dantes, muita gente não questionava sequer a sua identidade nacional. Mas, depois da guerra, passou a ser preciso fazer isso”, observa Daryia Orlova. O sentimento patriótico parece ter invadido Kiev. Há bandeiras um pouco por toda a parte, e se antes tanto o ucraniano como o russo podiam ser ouvidos, hoje fala-se de um “orgulho” em falar a língua do país. Mas nota-se, acima de tudo, uma mitificação dos acontecimentos dos últimos dois anos. 

O presente já é História
A Praça da Independência — principal palco dos protestos, conhecidos como EuroMaidan, que levaram à queda do Presidente Viktor Ianukovich — é onde conflui esta nova narrativa. Na rua Institutska há flores e fotografias dos activistas mortos durante as manifestações e que são hoje conhecidos como os “Cem Celestiais”. Perto da catedral de São Miguel, um muro está coberto com as fotografias dos soldados e voluntários que caíram no Leste. Um pouco mais adiante, numa parede de um edifício, o artista plástico português Vhils esculpiu a face de um dos primeiros manifestantes mortos pelas forças de segurança.
Em várias cidades e aldeias, “as escolas têm placas com os nomes dos antigos alunos que morreram na guerra no Leste” e há ruas a adoptarem os nomes dos soldados mortos, conta Orlova. A piloto Nadyia Savchenko é já considerada uma das novas “heroínas” nacionais, depois da sua captura pela Rússia.
A cerca de 40 minutos da capital está, porém, um dos mais curiosos novos locais de “peregrinação” desta Ucrânia pós-EuroMaidan. Trata-se da antiga mansão de Ianukovich, que foi tomada por manifestantes logo após a sua fuga, em Fevereiro de 2014. Desde então, passou a ser conhecida como “Museu da Corrupção” e são organizadas diariamente excursões gratuitas a partir da Praça da Independência. A propriedade recebe hoje piqueniques familiares ou serve de cenário para produções fotográficas de casamentos.
A 20 de Fevereiro, foi assinalado o Dia da Dignidade com celebrações de alto nível, direito a transmissão televisiva e a um discurso do Presidente, Petro Poroshenko. As comemorações distam apenas dois anos em relação ao acontecimento que as origina e, ainda hoje, subsistem dúvidas em relação ao que se passou no dia mais mortífero na Praça da Independência. A narrativa promovida pelo Estado refere os “Cem Celestiais” como mártires pela independência ucraniana face à opressão das forças de segurança que defendiam Ianukovich, mas há relatos de que terão sido snipers conotados com movimentos nacionalistas os primeiros a disparar sobre a polícia.
Porém, no ambiente politicamente carregado de Kiev, tudo parece correr a uma velocidade vertiginosa. “Há expectativas públicas. Se Poroshenko ignorasse esta data, iria haver muito descontentamento”, diz Daryia Orlova. A guerra no Leste serviu também para justificar a proibição de 38 livros que o Governo ucraniano diz promoverem o “ódio” por parte da Rússia. O Partido Comunista também foi banido — decisões criticadas pela Amnistia Internacional. Mas estes episódios recentes são apenas mais um ponto na contenciosa História da Ucrânia.
Durante a II Guerra Mundial, a Organização dos Nacionalistas Ucranianos (OUN, na sigla original) e o Exército Insurgente Ucraniano (UPA), dois grupos que lutavam pela independência da Ucrânia, viram a invasão nazi em 1941 como a oportunidade perfeita para alcançarem o seu objectivo. Pelo caminho, organizaram um ataque em Lviv que matou 50 mil judeus e também perseguiram a minoria polaca naquela que é hoje a região ocidental da Ucrânia. Quando perceberam que a prometida independência também seria negada pela Alemanha nazi, a OUN e o seu líder histórico Stepan Bandera passaram a travar lutas contra nazis e soviéticos.



Durante as manifestações da Praça da Independência, era frequente ver entre a multidão cartazes com o rosto de Bandera e bandeiras vermelhas e negras — as cores do UPA. Em Moscovo, os media estatais rapidamente interpretaram estes símbolos como a prova de que o poder em Kiev tinha sido tomado por uma “junta fascista” e essa narrativa serviu para exacerbar os receios das populações no Leste do país.
O apelo lançado na Maidan juntou os mais diversos sectores da sociedade ucraniana, desde jovens universitários com valores progressistas a grupos nacionalistas com uma agenda conservadora. A uni-los estava apenas a recusa do actual estado do país. “Foi um momento muito especial, em que havia um mal muito maior e essas diferenças foram muito provavelmente descartadas”, explica a professora de Jornalismo. A apropriação da figura de Bandera é mais uma manifestação da tal História contenciosa da Ucrânia. “Há uma grande variedade de facetas que se pode retirar da sua figura”, nota Johann Zajaczkowski. “Ele pode ser um proto-fascista, pode ser uma figura trágica apanhada entre a Wehrmacht e as forças soviéticas. Mas as pessoas que mostravam as imagens de Bandera na Maidan pensam nele como um combatente pela independência da Ucrânia.”
O século XX foi particularmente sangrento para o território “histórico” da Ucrânia, quase sempre dividido entre os países que a circundam, como a União Soviética, a Alemanha nazi, a Polónia ou a Checoslováquia. Desta forma, “há um número muito limitado [de potenciais heróis nacionais] no repertório cultural”, diz Zajaczkowski. “Não há muita controvérsia sobre se Hitler era assim tão mau”, por exemplo. Na Ucrânia, continua o professor de Ciência Política, “é mais complexo. São questões que são politizadas e continuam a ser debatidas.”
Os historiadores da nova Ucrânia
Provavelmente pela primeira vez desde a independência, o Estado está empenhado em ter uma política de memória consistente. E nela entra Bandera, nomeado herói nacional e até com direito a nome de rua em Kiev. É no Instituto Nacional de Memória (INM) que a História “oficial” da Ucrânia está a ser desenhada. Como quase sempre neste país, o lastro da História está em todo o lado, a começar pelo edifício do instituto, antiga sede do KGB. O vice-director, Volodymyr Tylishchak, diz-nos que já tem recebido pessoas que se recordam de ali terem suportado longos interrogatórios nos tempos soviéticos. A História, uma vez mais.
O INM existe desde 2006, mas o seu percurso corresponde ao ziguezague que a narrativa histórica sobre a Ucrânia sofreu nos últimos anos. Depois de ter tido um papel de destaque na recuperação da memória do Holodomor — o período da “grande fome” durante o qual milhões de ucranianos morreram por causa das políticas de colectivização do regime estalinista — o instituto caiu na irrelevância com Ianukovich. Com a sua queda, os seus poderes foram reforçados.
Tylishchak diz que a missão do INM é “estabelecer um diálogo franco e honesto sobre o passado”, mas também “desvendar mitos e estereótipos”. É precisamente de Bandera e dos grupos nacionalistas que tratam esses “mitos e estereótipos”. A principal linha de argumentação é a de que os massacres cometidos contra judeus e polacos foram feitos em contexto de guerra e eram práticas das quais “ninguém ficou isento”. O alegado envolvimento da OUN e do UPA em processos de limpeza étnica é uma visão “promovida pela máquina de propaganda russa”, defende o historiador.
A nova lei da memória penaliza a negação do papel destes grupos na “luta pela independência da Ucrânia”. Perguntamos se a venda de uma t-shirt com a frase “Bandera é um criminoso de guerra” seria punida. Tylishchak diz que não. Mas não o aconselha a fazer: “É imprevisível como é que seria interpretado pelo público…”
Persistem, porém, muitas dúvidas sobre a validade científica do trabalho levado a cabo pelo instituto. Num artigo muito crítico publicado na Foreign Policy, Josh Cohen acusa o director do instituto, Volodymyr Vyatrovich, de “branquear o passado da Ucrânia”. Cohen cita vários historiadores que trabalharam com Vyatrovich que o acusam de “ignorar factos históricos consolidados, falsificar e retocar documentos e restringir o acesso aos arquivos do SBU [serviços secretos ucranianos sucessores do KGB]”.
O vice-director do INM considera o artigo “tendencioso”. “Não estamos a esconder nada, os arquivos estão abertos e não temos qualquer poder para os fechar ou abrir”, assegura. Johann Zajaczkowski é menos duro nas críticas ao trabalho de Vyatrovich: “Parece-me que está mais a defender a sua posição do que interessado num debate com outros historiadores, especialmente se não forem ucranianos.”
O trabalho do INM envolve também o chamado processo de “descomunização”. Em Abril foi aprovada uma lei que proíbe a exibição pública de simbologia associada à União Soviética e, desde então, foram mudados nomes de ruas e cidades e as estátuas de Lenine que faziam parte dos centros históricos de quase todas as localidades ucranianas têm sido derrubadas. Tylishchak nega que o instituto esteja a apagar a História do passado soviético da Ucrânia. “Queremos apenas remover a propaganda soviética do espaço público”, afirma.
Essa necessidade, diz o historiador, serve para superar aquilo que é descrito como uma “memória esquizofrénica”, presente na psique dos ucranianos. E dá um exemplo comum: “Seria difícil explicar a uma criança que, por um lado, condenamos o regime comunista e, por outro, temos monumentos dos seus líderes nas nossas cidades.”
Uma reconciliação entre estas duas narrativas parece hoje muito distante. “Talvez para a próxima geração seja mais fácil”, diz Daryia Orlova. “Mas para muitos dos que promovem hoje activamente esta narrativa da Ucrânia independente ou nacionalista, a época comunista encarna o mal.” A chave poderá estar nas micro-histórias, defende Zajaczkowski. Trata-se das comemorações na esfera familiar. É comum nas famílias ucranianas haver jovens que tiveram um avô a combater pelo Exército Vermelho e outro a lutar pelos grupos nacionalistas. “As pessoas, quando têm estes dias comemorativos, dizem que não se interessam [pelas motivações], põem as velas e pensam na história familiar.”
O jornalista viajou a convite da Comissão Europeia

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