quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Burquínis de raça portuguesa

A24: Eu corrigiria a autora e diria - Burkinis de raça "portuguesa", até porque falando em raça, os ciganos não são de raça portuguesa mas sim de raça indiana e egipcia.

Fernanda Câncio


Eu dantes usava calças. Ele nunca me disse "tens de usar saia comprida, porque é o hábito..." Não, nunca me disse, mas eu, como gosto dele e o quis respeitar, a maneira de ser dele, da família, pronto... Então comecei-me a adaptar à maneira deles, a usar saias compridas. Até já me sinto mal ao pé do meu sogro se tiver uma blusinha de alças. E há hábitos que nós costumamos ter e eles não, por exemplo: ir à praia... Vou, mas já não é como antes. Usava fato de banho, agora não, é um calçãozinho de licra e uma T-shirtzinha."

É a fala de uma muçulmana? De uma judia ortodoxa? De uma mórmon? Não. É da alentejana Carla, 34 anos, entrevistada num episódio da série documental da RTP A Vida Normalmente, de 2008. Carla casou com Bruno, cigano, teve duas meninas (10 e 9) e um rapaz (7), e explica que o marido lhe diz para "ter cuidado com as meninas. Na etnia deles as meninas têm de se preservar, não podem falar delas. Começam logo desde pequenos a pôr coisas em cima das crianças".


No mesmo documentário, surge Guadalupe, 35 anos, de negro da cabeça (coberta) aos pés. Guadalupe é cigana e ficou viúva muito cedo. É ela que, depois de assistir a uma parte das filmagens, aborda a equipa. Fala, muito baixo, sobre ter tido de rapar o cabelo e nunca mais poder dançar - e como gostava de dançar - ou sequer ouvir música. Fala da tristeza que sente, da alegria que, acha, nunca mais conhecerá, da condenação à qual se sente votada. Quer falar disso tudo, aceita ser entrevistada. Mas no dia da entrevista está menos faladora: há uma mulher mais velha a assistir. Ainda assim, Guadalupe atreve-se: "Tradição é assim, nós quando ficamos viúvas temos de ficar para o resto da vida e temos de servir com o preto até morrermos. Não é que concorde muito com a tradição dos ciganos, não concordo, mas sinto-me bem, não é dizer que me sinto bem com o preto porque é um desgosto na minha vida, mas para mim não é a parte que condeno mais nos ciganos. Esta parte não condeno, porque acho que é certo, viver só para os meus filhos e não para mais ninguém. Mas há muita coisa que se condena, não é? Nem tudo nós podemos explicar, mas há muita coisa que sei que é errado. Acho que têm mais direitos, os homens, mas era para ser igual, era para ser igual, não é?"
É capaz de haver alguma razão para que tanta gente que tanto se revolta e se sente "provocada" com a opressão das mulheres muçulmanas simbolizada nos hijab (lenço), roupas "recatadas" e burquínis nunca ter tomado sequer conhecimento da "lei cigana" e do que esta impõe às mulheres. Nunca viram? Nunca ouviram? Nunca se interessaram? "É lá com eles"? Mas como, lá com eles, se nos enfurece tanto a desdita das mulheres de burquíni sem nunca termos dado de caras com uma? Às tantas é porque não é, nunca foi e nunca será com as mulheres e a sua opressão que estamos ralados, verdade?

1 comentário:

Bilder disse...

Um dos resultados nefastos do relativismo multicultural pode ser confirmado aqui http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=2456