domingo, 7 de agosto de 2016

Em dia de final da Supertaça - Taça do Império, a primeira Supertaça portuguesa

Via Futebol magazine 
Em 1979 arrancou a disputa oficiosa da Supertaça no calendário português. Foi o pontapé de saída para uma tradição que já era antiga no resto da Europa e que se manteve até hoje. No entanto a primeira vez que surgiu a ideia de criar uma Supertaça ao estilo britânico, viviam-se outros tempos e o Sporting acabou por levantar o primeiro troféu em Portugal do que seria mais tarde a Supertaça Cândido de Oliveira.


A celebração do ano de ouro da Invicta
Em 1979 o FC Porto e o Boavista, clubes com estreitas relações pessoais resultado da amizade que unia Jorge Nuno Pinto da Costa, Valentim Loureiro e José Maria Pedroto, que se juntavam várias noites á semana no café Petúlia para jogar cartas com outros amigos e personalidades do desporto portuense, decidiram aplicar ao calendário português o partido inaugural da temporada, ao estilo dos seus vizinhos europeus, a disputar entre o campeão nacional e o vencedor da Taça de Portugal da época anterior. O FC Porto acabava de se sagrar bicampeão nacional e o Boavista, que com Pedroto ao leme se tinha transformado em “Boavistão”, fizera a festa da Taça coroando o primeiro pleno de troféus para dois clubes da Invicta no mesmo ano. Ambos clubes consultara a Federação Portuguesa de Futebol como era obrigatório. A ideia, esplanada, era a de seguir o velho exemplo da Charity Shield inglesa já copiada pela maioria dos países continentais. A Supertaça, em Inglaterra, remontava-se a 1908 e inicialmente tinha sido um jogo de disputa entre os campeões da First Division – profissionais – e da Southern League – amadores. Só quando o profissionalismo se fez regra a título definitivo – a partir de 1930 – é que se abriu a disputa entre vencedores da liga e da FA Cup que se manteve vigente. O modelo foi seguido depois por outros países. Em Espanha arrancou em 1940 e prolongou-se até 1953, seguindo-se um hiato que seria reatado em 1982. No caso francês a primeira edição foi disputada em 1955. Até a UEFA instaurou em 1971 uma Supertaça para os vencedores dos seus dois principais torneios, a Taça dos Campeões Europeus e a Taça dos Vencedores das Taças, mais tarde substituído pelo ganhador da Taça UEFA. Portugal entrava assim na modernidade competitiva. A FPF decidiu permitir a realização do jogo mas não lhe deu oficialidade. O Boavista venceu, nas Antas, por 2-1, e adjudicou o primeiro troféu. Ou isso pensavam. 

“Salazar promete, Salazar cumpre”, uma Taça para o Estado Novo
Na prática a primeira Supertaça de Portugal foi disputada muito tempo antes, em 1944, quase pioneira á escala mundial, seguindo o exemplo britânico. A Federação Portuguesa de Futebol, em conjunto com o governo do Estado Novo, decidiu instaurar nesse ano uma competição a disputar no inaugurado estádio do Jamor entre o vencedor do Campeonato Nacional e da Taça de Portugal no dia 10 de Junho como celebração da festa nacional. Foram atribuídos dois troféus, a Taça do Império – com título oficial outorgado pela FPF – e a Taça do Estádio, oferecida pelo governo e sem qualquer oficialidade. O Sporting e o Benfica, respectivos detentores das duas competições, seriam os rivais em campo. Estavam 80 mil pessoas no Jamor para a inauguração de um estádio que tinha sido idealizado em 1933 e que agora via, finalmente, a luz.
Os leões eram orientados pelo húngaro Josef Szabo que se media ao compatriota Janos Biri, dos homens chave na evolução do desporto português. Ambos tinham disputado o título nacional e agora mediam-se para ser coroados no dia mais importante do regime, particularmente agora que o destino da II Guerra Mundial parecia selado e os fantasmas da colaboração com alemães e italianos pendia sobre a cabeça de Oliveira Salazar. O Sporting foi superior durante todo o encontro. Peyroteo abriu o marcador aos dez minutos da segunda parte mas o empate de Espirito Santo forçou um prolongamento que ampliou apenas o espectáculo. Os verde e brancos alinhavam com o dois dos seus futuros “Violinos”, Albano e Peyroteo, antecipando uma era gloriosa que estava a ponto de chegar. O inevitável Peyroteo e ainda Eliseu ampliaram o marcador no tempo extra a 3-1 e o Benfica reduziu a instantes do final, por Júlio, para maquilhar o marcador e dar mais cor á festa nas bancadas. No final do encontro os principais dirigentes do Estado Novo uniram-se á festa entregando aos leões os dois troféus oferecidos e a vitória leonina entrou directamente no livro de registos oficiais da Federação Portuguesa de Futebol como o primeiro vencedor da Supertaça portuguesa.
O torneio estava previsto ter edição anual, como sucedia em Inglaterra, mas tal não voltou a suceder por desinteresse dos clubes envolvidos ainda que nos anos sessenta a Federação tenha reactivado a ideia mas apenas foi disputado um jogo, patrocinado pela Casa da Imprensa e sem cariz oficial, entre leões e águias, ganho desta feita por Eusébio e companhia. Até á iniciativa dos dirigentes portuenses a ideia ficou em banho maria.
O nascimento da Cândido de Oliveira
O êxito do jogo nas Antas levou a Benfica e Sporting, vencedores no ano seguinte de Taça e Campeonato, a emularem os seus rivais a norte e a disputarem a sua própria versão da Supertaça. Uma vez mais a Federação deu autorização mas não deu validade ao resultado, favorável aos encarnados. Estava no entanto claro que era hora de que os dirigentes federativos tomassem cartas no assunto e a partir de 1981, a Supertaça tornou-se de forma definitiva na prova de abertura do calendário. Seria disputada a duas mãos – como sucedera no ano anterior – e teria o nome de um dos mais influentes homens do futebol da história de Portugal, Cândido de Oliveira. Seria sempre um jogo entre o vigente campeão nacional e da Taça e caso o detentor dos troféus fosse o mesmo, com o finalista vencido no Jamor. Não haveria goal-average e sem um play-off de desempate em terreno neutral em caso de igualdade de marcador nos dois encontros, algo que só se alteraria a partir de 2001 com a redução para um jogo em campo neutro e decidido, se necessário, desde a marca de grandes penalidades.
O FC Porto tornou-se assim o primeiro vencedor oficial da nova Supertaça, batendo em duas mãos o Benfica e mais tarde a Federação decidiu igualmente dar validade aos triunfos de Boavista e Benfica. Com o caso do Sporting e da sua vitória em 1944 não havia qualquer necessidade, o triunfo dos leões já era um título oficialmente reconhecido e assim o Sporting pode reclamar ainda hoje ter sido, na prática, o vencedor da primeira Supertaça portuguesa.

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