quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Escusam de se preocupar

Rui A. Blasfémias
Todas as guerras ofensivas têm um fim e o fim de todas as guerras ofensivas é sempre derrotar um inimigo para lhes conquistar alguma coisa. A recente vaga de terrorismo islâmico demonstra que há uma guerra a decorrer no meio de nós, que apenas o nosso receio natural nos leva a relativizar ou mesmo a fazer de conta que não está a acontecer. Contudo, a Europa está em estado de guerra, os EUA estão em estado de guerra, a Turquia está em estado de guerra, e muitos outros países, vítimas do terrorismo islâmico, estão em estado de guerra. Porquê? Ainda por causa do Iraque? Mas o que têm a Tunísia, a Costa do Marfim, a Indonésia ou o Brasil a ver com isso? São alvos estrangeiros, turistas ou nacionais de países europeus, que são visados nesses ataques? Talvez. E isso justifica que os ataques sejam feitos nesses países? Provavelmente sim, mas só se for para passar a mensagem de que já estamos a viver uma guerra global, a primeira verdadeira guerra mundial de sempre, onde nenhum país ou lugar podem considerar-se seguros, e todos eles podem transformar-se, de um momento para o outro, em teatros de guerra. Ainda assim, fica a pergunta principal por responder: o que quer o inimigo com isto? Se é para vingar o Iraque, por que é que nunca houve atentados terroristas no Irão, que teve uma guerra com esse país ainda mais violenta do que a invasão americana? Por fanatismo religioso? Choque de culturas e de civilizações? Sem dúvida que a esmagadora maioria daqueles que perpetram os ataques deve acreditar que está a cumprir um desígnio de Deus, do seu Deus, contra ímpios e infiéis. Mas tudo isto parece curto para justificar um plano tão bem orquestrado e executado como aquele a que estamos, quase impávidos, a assistir. Até porque um esforço de guerra ofensiva visa sempre objectivos muito claros e bem delineados. A pergunta inicial volta, então, a colocar-se: o que pretende, quem ataca, com esta guerra? Provavelmente, se levarmos a sério as anunciadas intenções do Daesh, teremos a resposta: retomar a fatah de Maomé e do Império Árabe, recuperando o que lhe pertenceu e acrescentando-lhe o que for possível. Para tanto, começa-se por desmoralizar e desorientar o inimigo, abalando-lhe severamente o seu modo de vida e os seus valores civilizacionais, ficando à espera que ele cometa alguma imprudência. Depois, continuar a guerra e abrir novas frentes. Há tempo: não se trata de uma guerra para demorar poucos anos, como não o foi a expansão muçulmana, que durou séculos, e a progressão do terror islâmico tem sido constante. Neste cenário, como é habitual na hipocrisia ocidental, há quem procure desvalorizar os acontecimentos, sempre a tentar encontrar outras razões para os factos que não o terrorismo («pode não ser um atentado?», perguntava, ainda há pouco, uma locutora da RTP1). E há até mesmo quem, fazendo humor negro em circunstâncias tão sérias, se diga muito apreensivo com uma possível guerra que possa resultar da eleição do exótico Donald Trump. Mas escusam de se preocupar com isso: nós já estamos no meio de uma.

2 comentários:

Rick disse...

"E há até mesmo quem, fazendo humor negro em circunstâncias tão sérias, se diga muito apreensivo com uma possível guerra que possa resultar da eleição do exótico Donald Trump. Mas escusam de se preocupar com isso: nós já estamos no meio de uma."------------Sem dúvida que estamos,seja lá qual for o objectivo/os ou sejam lá quais forem os reais responsáveis(refiro-me claro aos máximos responsáveis porque no meio de tudo isto há muitos responsáveis e para todos os gostos conforme o ponto de vista de cada um tendo em conta a ideologia ou religião).

A-24 disse...

Nem mais. Totalmente de acordo.