sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Comunismo e mutilação genital feminina

Da Rússia
A mutilação genital feminina não acontece apenas em distantes países pobres, mas também ao nosso lado, com o apoio de dirigentes religiosos muçulmanos e com a tolerância das autoridades civis. É assim na Rússia, país cujos líderes acusam o Ocidente de hipocrisia e degradação moral, que quer ser o “modelo moral” da humanidade.
O mufti ao lado do "grande chefe"

No dia 15 de Agosto, a Fundação “Pravovaia initsiativa” (Iniciativa Jurídica) publicou um relatório onde denunciava a prática da mutilação genital feminina (circuncisão feminina) em aldeias do Daguestão, república do Cáucaso do Norte russo onde a maioria da população é muçulmana.

Segundo esse documento, este costume continua a ser praticado em meninas até aos três anos e, em casos raros, até aos 12. A operação raramente é feita nos hospitais e as que são feitas clandestinamente provocam muitas vezes infecções e hemorragias.
O relatório sublinha que, não obstante as mulheres que se sujeitaram à mutilação genital justificarem essa prática e a sua continuação, reconhecem que essa prática deixou nelas uma forte marca psicológica.
O documento provocou forte discussão na Internet russa, numerosas condenações desta cruel violação dos direitos da mulher, o que levou à reacção do mufti Ismail Berdiev, presidente do Centro de Coordenação dos Muçulmanos do Norte do Cáucaso.
Tendo em conta que estes cargos são ocupados apenas por pessoas previamente autorizadas pelo Kremlin de Moscovo, podia-se esperar uma condenação de tal prática, mas tal não aconteceu: Berdiev considerou que a mutilação genital feminina não vai contra os princípios do Islão, não faz mal à saúde e é feita para “acalmar as mulheres” no Daguestão.
Estas declarações provocaram numerosos comentários indignados e o mufti respondeu com o “alargamento geográfico” da circuncisão feminina.
“É preciso circuncisar todas as mulheres para que não haja depravação no mundo, para que a sexualidade diminua”, declarou Berdiev à agência noticiosa Interfax, acrescentando: Se isso fosse feito a relação a todas as mulheres, isso seria muito bom. O Omnipotente criou a mulher para ter filhos e educa-los… As mulheres não deixarão de dar à luz [após a mutilação genital], mas a depravação seria menor.
Na era soviética (1917-1919), criou-se a lenda de que na URSS existia a igualdade total entre homens e mulheres, mas a verdade é que isso não passou mesmo de uma lenda, principalmente nas regiões onde a maioria da população era muçulmana. É verdade que as mulheres foram obrigadas a deixar de usar burkas, foi proibido o pagamento de dote pelas noivas e o seu rapto antes do casamento (Os leitores que viram a comédia “O Sol Branco do Deserto” compreendem do que estou a falar). É verdade que o Islão foi alvo das mesmas perseguições que as restantes religiões, mas também é verdade que as autoridades comunistas locais não só fechavam os olhos a muitas dessas tradições, como até as seguiam à regra (processo bem retratado na comédia soviética “A Prisioneira do Cáucaso) e, logo após o fim da URSS, tudo voltou depressa ao antigamente e de forma aberta.
Falámos da mutilação genital feminina, mas podíamos falar da poligamia, defendida, por exemplo, por Ramzan Kadirov, o “ditadorzinho” que representa o Presidente Putin na Chechénia.


“Muitos consideram que isso [poligamia] é terrível. Mas eu digo: mostrem-me um homem que não tem várias amantes. Não existe. E todos mentem às suas esposas, mas eu não posso mentir à minha. Por isso, a poligamia é muito boa e muito mau é ter muitas amantes. Se eu for contra a poligamia, não sou muçulmano”, declarou ele.

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