quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Quem quer o multiculturalismo?

A pergunta é de simples resposta, pensando numa perspectiva politica e não na choradeira:


a) Residualmente os defensores da ideologia colonial;

b) A esquerda alternativa;

c) O capitalismo internacional;

d) Os idiotas úteis;

e) Os futuros déspotas.

Não sobram muitos, mas entre povos imperiais ainda há uma réstia desta ideologia, e foi ela que tornou tolerável durante décadas o multiculturalismo. O modelo do «Raj» britânico sobre a Índia é muito simples: para hindu e muçulmano basta aquela cultura retrógrada. Desde que não haja mortos na rua e se mantenha a segurança do comércio, eles que se entendam. São culturas inferiores, já viram a sua hora de glória, não se pode esperar mais delas. Mas, se não há muitos cultores conscientes desta ideologia, pelo menos oficialmente, ela é fundamental porque traduz uma linha de força de muito longo prazo. Os ingleses beberam a inspiração dos modelos romanos que mantiveram a autonomia dos municípios e algumas estruturas regionais, tetrarquias, régulos, principados. E mostra o fundamento último, o modelo de base, de todo o pensamento multicultural. Este é sempre imperialista na sua inspiração.

A esquerda alternativa defendeu sempre o multiculturalismo. O fundamento não é humanista, mas o ressentimento contra a base cristã de uma civilização em que nunca deteria superioridade de qualquer natureza, nem de beleza, nem de nascimento, nem de grandeza intelectual. O ressentimento leva a pegar em tudo que vá contra o seu centro vital, e o seu centro vital é, apesar dos seus protestos, a civilização cristã que lhe deu direito à vida. Os alternativos favorecem o multiculturalismo porque tudo vale mais que a Europa, essa Europa que pela sua exigência lhes desvela a natureza vil. Se tiverem de escolher, aceitam mesmo o abaixamento das mulheres, o aviltamento de crianças, a falta de liberdade geral. Tudo, desde que não seja a Europa.

O capitalismo esfrega as mãos. Não é por acaso que os tradicionais partidos marxistas ortodoxos nunca viram com muitos bons olhos a vinda de muitos imigrantes. Sabem bem que se trata de um exército de reserva proletário que abaixa o poder negocial dos trabalhadores. «Não queres? Há sempre um tunisino que está disposto a ganhar metade». O capitalismo esfrega as mãos ao ver estas deliciosas condições de trabalho em que pode escolher o menos bom, mas por muito menos preço.

Restam os idiotas úteis. Estes são usados por todos: uns usam os seus sentimentos cristãos, outros, sabendo que o público não se diz (ou sabe) cristão, apelam para os direitos do homem, a civilização, a democracia, que espantalho melhor sirva para os seus fins. O bom do Lenine conhecia bem a importância dos idiotas úteis. O idiota útil sente-se útil, mas é-o apenas porque…é idiota.

Restam? Ainda no fundo do túnel aparece uma figura bem mais sinistra, mas que é a conclusão lógica deste movimento. Os futuros tiranos. A história grega mostra que os tiranos tiveram duas políticas em comum. A criação de exércitos profissionais, de mercenários, e a indução forçada de heterogeneidade das populações para as tornar mais dóceis. Quando a população se torna heterogénea cria tensões entre si, e isso justifica a existência do tirano para manter a paz. Quando se torna heterógena é bem mais difícil actuar como uma só contra o tirano. As populações que vieram de fora vêem o horror que é a vida heterógena e aceitam melhor os seus regimes. Tornam-se mais submissas. Os futuros tiranos vão agradecer o multiculturalismo. Abriu-lhes o campo para o seu futuro reino.

Ideologia de índole imperial, apoiada pelo ressentimento e pela cupidez, e sufragada pela idiotia prepara na sua conclusão o que é a sua origem: a tirania.

Alexandre Brandão da Veiga

3 comentários:

Bilder disse...

Além de todos os outros(que também são muitos)apontados neste post,os idiotas úteis(ou inúteis do ponto de vista da civilização)são mais que muitos.

Rick disse...

"A ideologia modernista,que nos impregna de abertura,de nomadismo,de cosmopolitismo,no melhor dos casos recusa ver o problema,no pior dos casos desqualifica-o,falando de "comportamento conservador".O "cosmopolitismo global" é um logro que diz respeito a uma pequena elite,aquela que viaja e acede aos mesmos meios de comunicação social,que partilha os mesmos hábitos e as mesmas práticas culturais,em suma,um "cosmopolitismo de aeroporto". É preciso ter atenção para não confundir este pequeno meio(elitista),ainda que seja muito visível,com o resto do mundo.De qualquer modo há um paradoxo: este próprio meio,que não deixa de estigmatizar as identidades de "outra época" e de enaltecer as virtudes da mestiçagem,é na realidade,muito identitário e está muito atento aos seus previlégios.O que diria ele se fosse obrigado a mudar?Há dois pesos e duas medidas: por um lado,os que falam das virtudes do cosmopolitismo são,evidentemente,os que beneficiam com o movimento da globalização; por outro,os que sofrem as consequências criticam-no e,para resistir,interessam-se mais pelo lado das identidades culturais e nacionais. Esta ideologia do "cidadão mundial" é realmente a das pessoas da "alta",daqueles que têm uma identidade bem construída e podem "caçar furtivamente" à direita e à esquerda,sem recearem ser desestabilizados. As elites são globalistas,e os povos,naturalmente,são nacionalistas.O que está em causa é este estatuto "de vanguarda" com que se enfarpelam as elites,e como este elitismo não foi posto em causa,com a democratização e a cultura de massas nos anos 60(nota deste blogger: e não foi porque a democracia e a cultura de massas são manipuladas pelas ditas elites),ele é,na época da globalização,ainda mais arrogante."---------------------------------------Dominique Wolton in A Outra Globalização,livro de 2003-

Rick disse...

Check https://aagendasecreta.blogspot.pt/2016/07/blog-post.html