quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A intelectual pornográfica

Via Estado Sentido 


Nos últimos dias, como forma de anunciar o Salão Erótico de Barcelona, foi posto a circular um vídeo que, neste momento, conta com mais de um milhão de visualizações e partilhas pelas redes sociais e pelos órgãos de comunicação social de vários países. 
 https://www.youtube.com/watch?v=6om5nTVyQlg

A RTP (que, não vá alguém esquecer-se, todos pagamos) partilhou o vídeo na rede e, através de um texto da jornalista Joana Martins, esclareceu que «num vídeo com 1:30 são referidas todas as incongruências do povo espanhol».
Curioso, fui ver o tal vídeo à espera de ficar pasmado com a coragem de quem denunciava «um País hipócrita». Ao longo dos tais noventa segundos, uma actriz pornográfica dá-nos a conhecer o País que temos aqui ao lado e que, não fosse ela, continuaríamos a desconhecer por completo. O texto é o seguinte: «Chamo-me Amarna Millner. Sou actriz pornográfica e nasci num País hipócrita, em que os que me chamam puta são os mesmo que se masturbam com os meus vídeos. Um país que ama a vida mas que permite que se mate em nome da arte. Um país indignado com a corrupção, mas que continua a votar em ladrões. Um país em que se salvam os mesmos bancos que desalojam milhares de famílias. Um país que se diz laico, mas que oferece medalhas a virgens. Um país que trata os que emigram como heróis e os imigrantes como lixo. Um país em que os que se supõem guardiães da moral podem ser os mais perigosos. Um país onde a prostituição não é legal, mas em que anualmente cresce o número de clientes. Um país que se crê aberto e tolerante, mas um árbitro recebe ameaças de morte por ser gay. Sim, vivemos num país asquerosamente hipócrita, mas não nos rendemos». 

Como não ficar estarrecido? Não se pode afundar já Espanha? Como é que um País hipócrita ainda existe? Como é que o Boaventura Sousa Santos nunca se deu ao trabalho de resumir num vídeo tão curto as nossas hipocrisias, que são tão parecidas? Por que é que podíamos ter vídeos tão simples em que os intelectuais porno se manifestavam e andamos a ouvi-los diariamente nas televisões, a lê-los nos jornais e a estudá-los nas universidades? Por que é que a Armarna está vestida? Talvez porque a hipocrisia de Espanha, denunciada de forma tão corajosa por Armarna Miller (ou por quem a pôs a falar), não seja assim tão grande. Vejamos: 

«Nasci num País hipócrita, em que os que me chamam puta são os mesmos que se masturbam com os meus vídeos.» Nós também vivemos num País hipócrita. Querem ver? Os que chamam ‘atrasado mental’ a um concorrente da Casa dos Segredos são os mesmos que veem o programa. Os que chamam ‘cabrão’ a um incendiário são os mesmos que passam horas a assistir a incêndios em directo na televisão. Claro que é errado chamar nomes a uma actriz pornográfica. Mas a verdade é que os que se masturbam com os vídeos dela são quem, na verdade, lhe paga o salário. Que lhe chamem nomes é feio, sim. Mas se compararmos a quantidade de gente que chama ‘puta’ a actrizes porno com a que chama ‘mentirosos’ a advogados, percebemos que eu estou claramente em vantagem. E com o meu trabalho ninguém se masturba – julgo eu. Isto não é um País hipócrita, Armarna. É a vida. As pessoas chamam nomes umas às outras. É por isso que precisamos de leis. E de guardiães da moral, já agora. 

«Um país que ama a vida mas que permite que se mate em nome da arte.» A intelectualidade pornográfica acha hipócrita que as pessoas tenham mais apreço pela vida de um ser humano recém-nascido que pela de um touro. Não chego mesmo a perceber, pelo texto, se há algum problema em amar a vida ou se o problema é só com matar em nome da arte. A propósito, Armarna, sabes como se chama aquela enfermeira que teve ébola e que viu o Excalibur ser abatido? 

«Um país indignado com a corrupção, mas que continua a votar em ladrões.» É uma chatice, eu percebo. Mas o voto livre não é sinal de hipocrisia, Armarna. No limite, é sinal de ignorância ou de comodismo. 

«Um país que se diz laico, mas que oferece medalhas a virgens.» Eu contextualizo: Carolina Marín foi a primeira não-asiática a ganhar uma medalha de ouro em badminton. A proeza deu-se este ano, no Rio de Janeiro, e, no regresso a Espanha, a atleta foi a um Santuário, em Almonte, e ofereceu a medalha que tinha ganho à Virgem do Rocio. Armarna não gostou, porque Espanha é laica. Em primeiro lugar, é o Estado espanhol que é laico. Isto significa que o Estado e a Igreja são coisas diferentes, que não se confundem. Não significa que as pessoas que vivem nesse Estado tenham de ser ateias. Hipocrisia é dizer que um Estado é laico quando o que se quer dizer é que todos os religiosos (excepto, julgo eu, os muçulmanos) deviam estar pendurados com uma corda ao pescoço. 

«Um país que trata os que emigram como heróis e os imigrantes como lixo.» Vejamos a dimensão da hipocrisia espanhola: segundo o MIPEX de 2015 (o Índex de Políticas de Integração de Migrantes), Espanha é o 10.º melhor País a acolher imigrantes, à frente de países como a Holanda, o Luxemburgo, a Dinamarca, a Itália, o Reino Unido, a França, a Irlanda, a Áustria, a Grécia, a Suíça ou o Japão. Se isto é tratar os imigrantes como lixo, imagine-se a dimensão da hipocrisia na ancestral Holanda. 

«Um país em que os que se supõem guardiães da moral podem ser os mais perigosos.» A mensagem aqui é clara e não visa alertar para qualquer alegada hipocrisia: o que interessa é fazer passar a ideia de que os padres da Igreja Católica são pedófilos. Não é por acaso que é filmado um actor a abanar uma batina com as cuecas à mostra. Não se denuncia hipocrisia nenhuma. O que se faz é condenar uma religião pelos seus abusos, depois de o próprio Papa já ter lamentado os casos de pedofilia que ocorreram com membros da Igreja. 

«Um país que se crê aberto e tolerante, mas um árbitro recebe ameaças de morte por ser gay.» É verdade que um árbitro espanhol recebeu ameaças de morte por causa da sua homossexualidade. Também é verdade que a sociedade espanhola e estrangeira se uniu para defender o tal árbitro. O comportamento de uns é usado para fundamentar uma alegada hipocrisia de um país com mais de 46 milhões de habitantes.
Na verdade, o vídeo de Armarna Millner é mais que publicidade ao Salão Erótico. É campanha ideológica de relativismo moral e cultural, de ateísmo militante, de progressismo totalitário. A revista Sábado diz que a actriz porno «arrasou a hipocrisia da sociedade espanhola». Em Espanha já ninguém deve dormir, tal foi a dimensão do arraso.

Sem comentários: