segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Os bons pastores

Tiago Moreira de Sá


No filme O Bom Pastor, de Robert De Niro, há um diálogo delicioso que ajuda muito a perceber o que se passa na América. A um dado momento, Edward Wilson, um jovem branco, anglo-saxão e protestante – e já agora formado em Yale – encontra-se com Joseph Palmi, um descendente de emigrantes italianos e, claro, mafioso. A conversa entre eles é significativa: Palmi: - “Nós, italianos, temos as nossas famílias e a Igreja; os irlandeses têm a sua terra natal; os judeus têm as suas tradições; mesmo os negros têm a sua música; e vocês, o que é que têm? Wilson: - Nós temos os Estados Unidos da América e vocês estão apenas aqui de passagem”.
Muito se tem escrito sobre as eleições presidenciais nos EUA e sobre o fenómeno Donald Trump, que há um ano não existia politicamente, ganhou de forma esmagadora as primárias do Partido Republicano e até recentemente parecia ter reais hipóteses de ser eleito presidente. Porém, Trump, sendo por si mesmo muito relevante, é sobretudo um sintoma e não a causa. Esta última, se tivéssemos de escolher apenas uma, está na transformação radical da identidade americana e nas reacções que tal provoca entre os que julgavam ser (e ter) a América: os WASP (White, Anglo-Saxon and Protestant).
Em rigor, a história tradicional de um Estados Unidos criados por colonos britânicos, que partiram do outro lado do Atlântico e transportaram para o novo mundo os seus valores e instituições é em parte um mito. Como têm escrito autores da chamada “nova história americana” o país é o resultado de um conjunto mais variados de influências, incluindo também os índios, os escravos africanos, os caribenhos (como o próprio Alexander Hamilton), os mexicanos (pelo menos desde as guerras com o México da década de 1840), os franceses, os espanhóis, os alemães e os italianos.
Todavia, durante cerca de 200 anos, os brancos, anglo-saxões e protestantes detiveram o poder na América, a começar pelo controlo do sistema político, e isso permitiu-lhes construir o país à sua imagem, desde os valores até às instituições, ou, como disse Edward Wilson, permitiu-lhes ter os EUA. Ora, pela combinação da demografia e da imigração isso está a chegar ao fim.
As minorias étnicas são já mais de 1/3 da população total do país, mais concretamente 36.5% (United States Census Bureau), com os hispânicos a ser a maioria (17.6%) à frente dos afro-americanos (13.3%) e dos asiáticos (5.6%). E em 2055 os WASP já não serão a maioria, mas só a maior minoria, com 46% da população, enquanto os hispânicos serão 24%, os asiáticos 14% e os afro-americanos 13% (Pew Research Center, Demographic Trends). A tudo isto há a adicionar os chamados “multiracial americans” e “post-racial americans” cuja percentagem não é fácil de apurar mas estima-se que seja razoável e em crescimento.
Isto é, os WASP estão em declínio nos números. Mas há mais: estão também a perder o poder político, para já ao nível da Casa Branca, como o comprova a eleição de um presidente negro, chamado Barack Hussein Obama. A vitória de Obama em 2008 (e a sua reeleição em 2012) foi um verdadeiro ponto de viragem, não só devido ao facto de para tal ter sido decisivo o enorme apoio que teve das minorias étnicas, mas também por ter sido o primeiro afro-americano a ser eleito presidente, facto inaceitável para muitos WASP. Por mais politicamente incorrecto que seja dizê-lo, a verdade é que para uma parte considerável deste grupo um presidente negro não representa a América, chegando ao ponto de dizerem (e muitos acreditam nisso) que Barack Obama nem nasceu nos Estados Unidos.
Num extremo, os brancos, anglo-saxões e protestantes (ou melhor, uma boa parte deles) consideram que o seu país está a ser-lhes roubado. E é contra isso que reagem. Hoje, votando maioritariamente em Donald Trump. Amanhã provavelmente por formas ainda piores.
Na teoria das relações internacionais existe um vasto campo de estudo sobre as chamadas transições de poder que, por analogia, é muito útil para perceber o que se passa – e passará – na América. A ideia principal é a de que as transições de poder, que resultam do declínio da “potência dominante” e da ascensão de uma “potência secundária”, são o momento mais perigo da política internacional, sobretudo na fase de equilíbrio entre ambas, acabando uma delas por iniciar uma guerra de cujo resultado dependerá a detenção do domínio.
Desenganem-se aqueles que pensam que podem dormir descansados no dia 9 de Novembro. Na véspera, Trump terá sido derrotado de forma expressiva, como de resto merece. Porém, não só ele arranjará maneira de dizer que as eleições foram manipuladas (o que já está a fazer neste momento, preparando o dia seguinte), como, mais grave de tudo, uma parte significativa dos seus eleitores WASP reagirá contra o facto (pensam eles) de a América estar a ser-lhes roubada, sendo mesmo de esperar que essa reacção se torne crescentemente violenta (violência essa que, de resto, Donald Trump incentivou durante a campanha e continuará a alimentar, provavelmente de forma ainda pior, depois desta). Afinal, são os mesmos que aplaudiam e uivavam quando o candidato dizia que os mexicanos eram violadores; que ia construir um muro na fronteira entre os EUA e o México; que ia impor limites à entrada de muçulmanos no país; que ia voltar a autorizar a prática de “afogamento simulado” e outras formas de tortura; quando ele gozava com deficientes; ou quando dizia que “agarrava as mulheres pela vagina”.
Ao contrário dos italianos, dos irlandeses, dos judeus e dos negros, os “bons pastores” WASP americanos não têm nem a família, nem a Igreja, nem a terra natal, nem as tradições, nem a música. Tinham os Estados Unidos da América. Mas estão a deixar de ter. Isso mesmo diria hoje Joseph Palmi a Edward Wilson se se voltassem a encontrar. E não é difícil imaginar a ira do segundo.

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