domingo, 9 de outubro de 2016

Salman Rushdie: “Este é o pior tempo de que me lembro”

A24: Salman Rushdie esteve recentemente em Portugal e à conversa com a jornalista Clara Ferreira Alves. Aluns excertos:



“Vivemos numa era de trevas”, disse Salman Rushdie, na noite de sexta-feira, aos cerca de 500 espectadores que encheram a tenda dos concertos do festival literário Folio, em Óbidos. “Nasci pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, e este é o pior tempo de que me lembro”.

“É claro que se pode fazer troça da religião", disse Rushdie. "Porque a religião é a coisa mais absurda que existe. E se não fazemos troça das coisas absurdas, fazemos de quê?” Referiu-se assim ao seu próprio caso, da publicação do livroVersículos Satânicos, que levou à fatwa (condenação) de Khomeini: “Foi uma guerra entre quem tinha e quem não tinha sentido de humor”. E manifestou-se estupefacto com a atitude de muitos intelectuais, incluindo um grupo de escritores seus amigos, que assinaram um documento criticando o Charlie Hebdo.

“o anonimato permite ser incrivelmente agressivo e mal-educado. Parece que há uma geração que desconhece a civilidade. Isso preocupa-me muito. E tem consequências, como a emergência de falsos profetas como Donald Trump, ou Marine Le Pen, o Brexit…”

“Ou Boris Johnson”, acrescentou Clara.
“Tenho dificuldade em chamar a Boris falso profeta. Falso, sim. Boris é das piores pessoas que conheço, não passa de um rato…”
“Já estamos a perceber por que razão você está sempre a meter-se em sarilhos”, concluiu Clara. 

E continuou-se com humor negro até ao fim, falando do declínio do Ocidente, a ausência de esperança na China ou na Índia, etc. Em Dois Anos, Oito Meses, e Vinte e Oito Noites, porém, há um vislumbre de final feliz, ao contrário, por exemplo, da distopia 1984, de Orwell. “A última frase de 1984 é ‘Ele amava o Grande Irmão’. Tinha sido criada uma sociedade em que o totalitarismo teve a vitória absoluta. Ora há aí uma visão errada da História, porque isso nunca aconteceu na História do mundo. Há sempre a possibilidade de revolta. A História não é imutável, quando parece que vamos numa direcção, pode haver uma súbita mudança. Se tivéssemos esta conversa em 1989, e eu dissesse que não haveria União Soviética por altura do Natal, diria que eu estava louco. Não se pode prever o futuro. A ficção científica não passa da ciência de errar sobre o futuro”. 

A própria fatwa de Khomeini contra Rushdie não foi executada, à revelia de todas as previsões. E hoje Salman está em Óbidos a falar-nos do seu 17.º romance, quase 30 anos depois dos Versículos Satânicos. Sobre Khomeini, o que tem a dizer? “Estou contente por um de nós já não estar vivo. Não se metam com os escritores.”
Aplausos de pé. O Folio, festival literário de Óbidos, termina no domingo.

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