quarta-feira, 26 de outubro de 2016

"Se os 27 nos concedessem um bom acordo era o fim do próprio projeto europeu"

A24: Vale a pena ler até à última linha. Retenho sobretudo o que sublinhei a amarelo. Dá que pensar.
Charles Tannock em Downing Street



Entrevista a Charles Tannock, eurodeputado do Partido Conservador, que explicou em Bruxelas como Cameron podia ter tomado medidas para evitar a vitória do brexit no referendo 

O que espera das negociações para o brexit, que vão começar em março?

O governo britânico tem tentado já contactos informais com a Comissão e com as instituições europeias. Mas foi recusado que haja qualquer comunicação antes de começarem as negociações oficiais, após ser anunciado formalmente que o Reino Unido acionou o artigo 50.º. O problema vem de trás. Esteve nas mãos de David Cameron. Nunca lhe passou pela cabeça que ia perder o referendo. Cameron estava tão convencido de que ia ganhar que concedeu muitas coisas à ala eurocética do partido. Ele podia ter dado o direito de voto a toda a minha família que vive em Portugal e em França. São seis pessoas nascidas e crescidas em Inglaterra mas nenhuma pôde votar porque não era permitido após mais de 15 anos de ausência do país. Podia ter dito que só os britânicos podiam votar e não os cidadãos da Commonwealth. Em zonas como Birmingham, estes votaram para sair devido à promessa de que iam ter um novo acordo com a Commonwealth para substituir a imigração polaca pela paquistanesa. Cameron podia ter insistido numa participação mínima de 55% para o referendo ser vinculativo. Podia ter dado o direito de voto a partir dos 16 anos como aconteceu no referendo da Escócia, mas recusou. Podia ter insistido que tinha de haver uma maioria em cada país constituinte do Reino Unido: na Escócia, Gales, Irlanda do Norte e Inglaterra. Se o tivesse feito, não teríamos agora o problema de um brexit que vai ser muito crítico, por exemplo, na Irlanda, numa fronteira que não existe há quase 40 anos. Vamos ter de montar uma fronteira entre Norte e Sul. Vamos ser também confrontados com um novo referendo sobre a independência da Escócia. Cameron nunca achou que isto ia acontecer e nunca pediu aos funcionários do Estado para prepararem um plano B no caso de voto pela saída. Isso foi um pouco irresponsável. 

E o atual governo?

O governo não tem um plano. Agora estão a tentar decidir o que se vai passar. Há uma batalha muito forte no Conselho de Ministros entre David Davis, Liam Fox e Boris Johnson, que são muito ideológicos. A senhora May fez um discurso muito eurocético, forte, na conferência do partido, no qual deu a entender que vai haver um hard brexit, que vamos entrar nas negociações exigindo muitas coisas. Por exemplo, um tratado ideal mesmo sem termos contribuído para o orçamento da UE, não haver livre trânsito de pessoas, que teremos a nossa soberania para negociarmos os nossos tratados de livre comércio e ainda acesso ao mercado único. O melhor de todos os mundos. Mas claro que se os 27 nos concedessem um bom acordo era o fim do projeto europeu. O que se ouve nos corredores do poder em Londres são tudo ideias em defesa do hard brexit. O governo está a pensar na ideia de ter concessões setoriais, por exemplo para o sistema bancário e financeiro, para a indústria automóvel, química. 

Qual a vantagem de uma radicalização do discurso?

O hard brexit interessa porque toda a campanha para sair da UE foi feita por umas poucas pessoas. Nigel Farage, Daniel Hannan, Michael Gove. Durante muito tempo estavam fanaticamente dedicados a influenciar a imprensa, a apresentar Bruxelas como o Diabo, um perigo para a segurança nacional, a dizer que querem montar um exército europeu para invadir Inglaterra, que vêm refugiados da Síria que vão para a Alemanha e todos vão conseguir um passaporte alemão e vão todos vir para o Reino Unido. O cínico do Johnson que era muito amigo da Turquia há três anos, porque tem antepassados turcos, na campanha juntou-se àqueles que diziam que a Turquia vai aderir em breve à UE e 83 milhões de turcos muçulmanos vão todos vir para o Reino Unido. Agora vamos ver o que o governo vai apresentar. Theresa May disse que não pode haver eleições antecipadas ou um segundo referendo, que vamos sair da jurisdição dos acordos do Tribunal de Justiça europeu, que vamos poder fazer os nossos próprios tratados internacionais de livre comércio. Toda a gente vai interpretar isso como um hard brexit. 

May ainda pode mudar de ideias?

Falei com um alto funcionário de um ministério que me disse que ela ainda não decidiu nada, ainda está totalmente indecisa se vai fazer de uma forma ou de outra. Mas durante o congresso do partido tomou uma posição muito forte e os eurodeputados estavam a ouvir isso em tempo real. Para eles é uma posição muito hostil. Depois, Liam Fox veio dizer no outro dia que os cidadãos europeus que vivem no Reino Unido vão ser uma moeda de troca nas negociações. Para mim foi uma coisa muito pouco diplomática e inaceitável. A minha mulher não é moeda de troca para ninguém. Sempre trabalhou e contribuiu. Os portugueses que estão em Inglaterra, muito acima de cem mil, sempre trabalharam muito e pagaram os seus impostos. O governo britânico nunca ousaria dizer nada parecido para outras comunidades ou minorias étnicas, mas os europeus são um soft target. 

Qual a posição dos trabalhistas?

Temos um problema que é a posição do líder trabalhista, Jeremy Corbyn, que nunca foi defensor da UE porque para ele é um clube capitalista liberal. E ele é um socialista de extrema-esquerda. Gostaria de ver uma espécie de Cuba no Reino Unido se fosse primeiro-ministro. Em que ele poderia controlar uma soberania total, fazer nacionalizações de bens e indústrias sem interferências de Bruxelas. No seu coração ele vê isto como um projeto capitalista. Não gosta disto. O partido Liberal Democrata só tem sete deputados. É pró-europeu mas não tem influência. Vamos ver o que acontece amanhã [hoje] na eleição para o assento no Parlamento deixado vago por David Cameron. Se houver uma redução no voto conservador, será um sinal forte. 

*) Entrevista conjunta com a Antena 1 e a Rádio Renascença em Bruxelas

A jornalista viajou a convite do Parlamento Europeu

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