quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A América não é Nova Iorque

Nuno Tiago Pinto 


No final de Agosto aterrei na Califórnia para realizar uma série de reportagens sobre as eleições americanas. Quando me preparava para passar a alfândega, o funcionário fez-me a pergunta habitual: "o que o traz aos Estados Unidos"? Respondi que era jornalista, e que estava ali temporariamente em trabalho. O funcionário da patrulha da fronteira olhou para mim por cima dos óculos e, através do encaracolado bigode deu-me um conselho: "pergunte às pessoas se estão mais zangadas com o que Donald Trump disse ou com o que Hillary Clinton fez". Claro que a primeira pessoa a quem fiz a pergunta foi ao próprio. Que me respondeu o seguinte: "sou por aquele candidato que quer proteger a nossa fronteira" – leia-se, Donald Trump.

Fiquei com aquele conselho na cabeça. Mas só voltei a pensar nele quando um responsável político me disse o seguinte: "O Partido Republicano elegeu o pior candidato possível. Mas o Partido Democrata escolheu o único candidato que pode perder com ele." Foi então que percebi que tinha de esquecer tudo aquilo que pensava dos Estados Unidos da América. Apagar a imagem europeia de uma América cosmopolita, desenvolvida, de bem com a vida – um pouco à imagem de Nova Iorque, Washington e Boston, que já tinha visitado antes e de que tanto tinha gostado.

Na verdade, essa é apenas uma pequena parte da América. Naqueles 50 estados cabem 50 noções diferentes do que é um país. Cada um com a sua especificidade, os seus problemas, a sua visão em relação à política e aos políticos. Ao percorrer quatro desses estados, fui fazendo a pergunta que o funcionário da alfândega me tinha feito. E as respostas foram variando. Percebia-se a divisão. A insatisfação com ambos os candidatos. E, sobretudo, que os apoiantes de Donald Trump eram muito mais activos, empenhados e convictos do que os de Hillary Clinton.

Tinha testemunhado esse entusiasmo em Fevereiro, durante as primárias no New Hampshire. Em que uma sala apinhada de apoiantes do milionário seguia com uma devoção quase divina o discurso magnético e ao mesmo tempo caótico do candidato. Que dizia coisas simples: que eles iam ganhar outra vez, que o sistema estava falido, que a economia estava de rasto, que a culpa era dos imigrantes, dos chineses, dos muçulmanos e, sobretudo, dos políticos incompetentes de Washington. Ele podia dizê-lo. Não era político. E as pessoas acreditavam. Identificavam-se com aquele finório de Nova Iorque que come hambúrgueres no seu próprio avião e sentiam que o podiam convidar para um churrasco – apesar de a probabilidade de tal acontecer ser tão grande como a do Paços de Ferreira ganhar o campeonato nacional de futebol: zero.

Já como candidato Republicano, Donald Trump continuou a espalhar essa mensagem simples: ganhar. E para uma enorme franja da população que não vê a CNN nem lê o The New York Times ou o Washington Post e se sente excluída e ignorada pelo governo isso constituía um atractivo capaz de mobilizar para as mesas de voto pessoas que, normalmente, não votariam. Aproveitou, sobretudo, a falta de confiança em Hillary Clinton – e as divisões na sociedade provocadas pela governação de Barack Obama.
Trump alterou os padrões normais da política. Fê-lo nas primárias e continuou a fazê-lo nas eleições gerais. Tudo o que disse e fez, que teriam eliminado qualquer outro candidato, podia fazer-lhe mossa alguns dias, mas não tinha efeito durante muito tempo. Trump recuperava sempre. Passei o último mês a dizer que ele podia ganhar, que a insatisfação das pessoas comuns era grande. Repeti a história do funcionário da alfândega e o que ele me tinha sugerido: "pergunte às pessoas se estão mais zangadas com o que Donald Trump disse ou com o que Hillary Clinton fez." Hoje sabemos a resposta.

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