quinta-feira, 3 de novembro de 2016

A revolução húngara de 1956 provoca atritos entre Moscovo e Budapeste

José Milhazes 

A revisão da história na Rússia vai cada mais longe. Levantam-se monumentos a tiranos como Ivan o Terrível e Estaline. Desta vez não poupou a revolução húngara de 1956, esmagada por tropas soviéticas.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Hungria mandou chamar o embaixador russo em Budapeste para protestar contra as declarações de um conhecido jornalista russo sobre a revolução húngara de 1956, feitas num programa da televisão estatal russa Rossia.

Dmitri Kissilov, apresentador do programa de notícias “Novosti Nedeli” (Notícias da Semana), declarou, no seu último programa, que “a disposição [dos revoltosos] foi aproveitada pelos serviços de espionagem estrangeiros, que, nessa altura, preparavam a tecnologia de transformação de um processo inicialmente pacífico num caos sangrento. Não terá sido na Hungria realizada a primeira “revolução colorida” nos países nossos amigos?”
Desse modo, Kissilov reflecte o receio do Kremlin de que, ontem como hoje, qualquer movimento democrático no antigo “campo socialista” não tinha nem tem causas internas, mas externas. Seja na Geórgia ou na Ucrânia.
No dia 23 de Outubro de 1956 teve início uma revolta anti-soviética. Acreditando na política de “degelo” e “desestalinização” iniciada pelo líder soviético Nikita Khrutschov, milhares de húngaros saíram às ruas para exigir a melhoria de condições de vida, o fim da ditadura comunista e o restabelecimento da dliberdades democráticas no país. O Kremlin ordenou aos soldados soviéticos aquartelados na Hungria para esmagarem o levantamento, provocando mais de dois mil mortos. Nessa altura, o embaixador soviético em Budapeste era Iúri Andropov, que depois dirigiu o KGB (polícia política soviética que preparou também Vladimir Putin) durante muitos anos e a URSS durante alguns meses.
Se seguirmos a lógica de Kissilov, não podemos esquecer mais duas “revoluções coloridas”: a revolta dos marinheiros de Kronstadt contra o regime bolchevique em 1921, que foi esmagada de forma sangrenta às ordens de Lénine e Trotski, e o levantamento em Berlim Oriental de 1953, quando milhares de alemãs se manifestaram por melhores condições de vida e pela liberdade, tendo também sido alvo das armas dos soldados soviéticos.
As relações entre a Hungria e a Rússia caracterizam-se por um clima de “compreensão mútua”, dada a coincidência de posições ideológicas entre Viktor Órban, primeiro-ministro húngaro, e o Presidente russo, Vladimir Putin. Não foi por acaso que o protesto húngaro não partiu de Viktor Órban, grande admirador da política autoritária de Putin, mas do partido da oposição “Lehet más a politika” (Outra política é possível). Esta força política viu nas palavras do jornalista russo uma “ofensa” à memória dos revoltosos.
Dmitri Kissilov defendeu-se dizendo que apenas usou do direito à liberdade de expressão, mas é sabido que ele não é capaz de ir contra a linha ideológica do Presidente russo.
Num programa anterior, ele declarou que “a Rússia é o único país que pode transformar os Estados Unidos em pó radioactivo”.
Kissilov é um dos mais aplicados propagandistas da nova ideologia russa, que pretende apresentar ao povo russo e ao mundo um país mais musculado, capaz de desafiar qualquer inimigo. Por isso, assiste-se na Rússia à instalação de monumentos a figuras tão odiosas da história russa como Ivan o Terrível ou Estaline. Recentemente, com a presença de autoridades civis e religiosas, foi inaugurado um monumento a Ivan IV, czar que ficou conhecido pelas suas atrocidades, na cidade de Oriol. Um dos presentes transportava nas mãos um ícone desse monarca russo que reinou entre 1533 e 1575.

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