sexta-feira, 11 de novembro de 2016

“Devolvam os nomes aos betos!”

Via Sábado

Pode-se dizer que o país da primeira maioria de Cavaco Silva era um país mais à direita?
Creio que não. Num sistema eleitoral como o nosso, um sistema proporcional, a obtenção de uma maioria absoluta pressupõe sempre a ultrapassagem das fronteiras entre esquerda e direita. Pelo menos, tais como as concebemos tradicionalmente. O voto que dá maiorias absolutas é, em boa medida, um voto não-ideológico – ou, quando muito, é motivado por "ideologias" de outra natureza, como a ideia de "progresso" ou o desejo de bem-estar material.

O novo-riquismo e a cultura do self-made man dos anos 80 estavam mais conotadas com a esquerda, e associada a uma certa ideia de que qualquer um podia chegar ao topo…
Discordo totalmente. A cultura do self-made man e a ideia de meritocracia são muito mais ligadas a uma visão liberal de direita do que ao igualitarismo de esquerda. Já o novo-riquismo é transversal a direita e a esquerda…

Escreve que Cavaco Silva foi espezinhado devido às origens humildes, e apesar do curriculum académico. Esse desprezo foi-se diluindo com o tempo e com uma certa emergência académica provinda da classe média?
Espezinhado será talvez um termo demasiado forte… Menosprezado, sim. Visto como um intruso, sem dúvida. E essa atitude creio que não mudou, pelo contrário. Ela ainda é muito frequente entre as elites, de esquerda mas também de uma alguma direita. E isso até demonstra, creio, o que digo no livro: numa sociedade como a portuguesa, a grande clivagem situa-se entre elites e povo, mais do que entre esquerda e direita. As elites menosprezavam Cavaco Silva, o povo votava nele.

O povo mandou os seus filhos para a universidade mas hoje, muitos deles, não poderão fazer o mesmo com os descendentes. Este é um claro sinal da que voltamos ao Terceiro Mundo ou nunca saímos de lá (apesar de pisarmos os salões da Europa)?
Não sou assim tão pessimista e, muito menos, nostálgico de um passado que nunca existiu. O acesso ao ensino superior é hoje muito mais aberto e, se quisermos, muito mais "democrático" do que era há 40 ou 50 anos. Neste aspecto, e felizmente, ainda não se verificou entre nós algo que está a ocorrer nos Estados Unidos, e que um documentário comoIvory Tower/A Torre de Marfim (2014) ilustra de forma terrífica. Os custos da frequência das universidades americanas aumentaram exponencialmente, há uma verdadeira "bolha" no sistema académico dos EUA. Antigamente, um aluno pagava e empréstimo que fazia para as propinas de Harvard ou Yale em cinco ou seis anos de trabalho. Agora, necessita quase de uma vida inteira! Aí, sim, há uma terrível desigualdade social – e não só social. Ora, isto vai ter efeitos na sociedade americana que se irão prolongar durante décadas, pois cada vez mais alunos, excelentes alunos, não se inscrevem nas melhores universidades por insuficiência de recursos. A América está a desperdiçar gerações, o seu melhor potencial, e irá pagar essa factura durante muitos e muitos anos. Perdeu-se a noção de que não há desenvolvimento sem justiça social. Cá, felizmente, não existe um problema no acesso às universidades com essa dimensão e gravidade.
Portugal deposita quase todas as suas esperanças no turismo. Podemos ser os estalajadeiros da Europa durante quanto tempo?
Esse diagnóstico talvez seja excessivo. Mas é muito provável que o sector dos serviços (não apenas do turismo, mas dos cuidados de saúde para idosos, por exemplo) venha a crescer e a ganhar preponderância sobre a agricultura e a indústria. Aliás, isso já está a acontecer há muito tempo e, em si mesmo, não é algo negativo nem é positivo, é a realidade à qual temos de nos adaptar. Quanto tempo durará o "boom" do turismo, é coisa que não sei. Mas, a não ser que ocorra uma mudança súbita, por qualquer razão, o turismo está aí para ficar. O ritmo pode abrandar, mas não creio que o turismo vá desaparecer de um dia para o outro. Justamente por isso, haverá que ter muito cuidado em evitar excessos e impedir erros cometidos no passado. Como os praticados em certas zonas do Algarve, por exemplo. Ninguém de bom senso pode querer que Lisboa se transforme numa gigantesca Albufeira. É mau para todos; quer para os lisboetas, quer para o próprio turismo.

Sendo lisboeta, alinha com os que condenam a ‘postalização’ da cidade. Está farto de turistas e tuk tuk’s?
Estou, acho que todos estamos bastante fartos de nem conseguir andar a pé no Chiado ou na Baixa, até porque isto aconteceu de uma forma muito repentina e em massa. Mas também temos que ver aspectos positivos. Por exemplo, na recuperação de dezenas e dezenas de imóveis degradados, que estavam fechados, a apodrecer. Prefiro turistas e tuk tuk’s a graffiti e tag’s rabiscados nas paredes. O ideal seria ter menos tuk tuk’s nas ruas e menos tag’s nas paredes. Creio que isso ainda se pode alcançar, nem tudo está perdido. Haja esperança.

Miguel Esteves Cardoso, o homem que, reza o seu livro, tirou a direita do armário e mostrou o seu lado cultural e pop, fez nos anos 80 uma clara distinção entre betos e queques, sendo os primeiros os novos-ricos e os segundos os herdeiros das velhas famílias. Ainda faz sentido falar em dinheiro velho e dinheiro?
Infelizmente, não. Porque dinheiro, novo ou velho, há cada vez menos… Os angolanos, sobretudo eles, ainda desempenharam durante uns tempos o papel dos novos-ricos de antigamente, mas agora nem isso.


A aristocracia arruinada dos solares dos anos 80 e 90 pode ser considerada a pioneira do turismo rural e afins?
Num certo sentido, sim. Mas a atracção pelo ruralismo é muito anterior. Para não recuarmos ainda mais, no século XX, além do pastiche "português suave" do Estado Novo, há uma profunda atracção do PCP pela "autenticidade" do mundo rural. Não por acaso, Cunhal dedicou um volumoso livro à questão agrária. Depois, na década de sessenta, há todo um conjunto de intelectuais, portugueses e estrangeiros (como o Giacometti, por ex.), que descobrem e reinventam a ruralidade, com incursões "etnográficas" pelo país. O turismo rural contemporâneo, com spas, massagens e outras comodidades, é um prolongamento sofisticado da moda das camisas de pescadores que marcou o final dos anos 60 e os anos 70.

O seu livro passa a ideia de que direita e esquerda são conceitos que não podem ser aplicados de forma ‘pura’ às classes populares. É mais fácil fazê-lo com as elites?
O que digo é que elites e povo vivem em mundos separados e que é uma ilusão pensar-se que a televisão ou as redes sociais os aproximaram. As elites intelectuais passam a vida em polémicas, pois é a polémica que justifica a sua existência e que, no fundo, lhes confere estatuto intelectual. O povo, além de estar cansado e farto das brigas da classe política, está também cada vez mais distanciado e alheado destas quezílias de tribos e facções, que nem sempre são identificáveis com a dicotomia esquerda/direita.

A propósito, quem são hoje as elites deste país? São de direita ou de esquerda? Isto se é que ainda existem.
Claro que há elites, de direita e de esquerda. Não são é grande coisa…

Há queques de esquerda?
Obviamente. O que, aliás, é mais do que natural.

Não é curioso que as crianças portuguesas tenham hoje quase todas nomes recuperados da velha cartilha? Os Bernardos e os Duartes derrotaram de vez as Sheilas e os Fábios?
Sim, por efeito de vários fenómenos, como as telenovelas, o povo mimetizou a onomástica dos nomes próprios das classes altas. Nomes "antigos", que as elites tinham redescoberto nos anos 80 e 90 e usado como "sinais de distinção". Deixaram de o ser, vulgarizaram-se. Recentemente, e eu digo isso no livro, até circulou na Internet um texto intitulado "Devolvam o nome aos betos!". Isso não vai acontecer, mas as elites encontrarão certamente outros expedientes e mecanismos de distinção social.

Os nossos grandes vultos, aqueles que levaram o nome de Portugal aos quatro cantos do mundo (exceptuando Ronaldo) são Amália Rodrigues, Camões, Fernando Pessoa. Olhando para as ‘obras’ de todos, considera que eram de esquerda ou de direita? 
Possivelmente, os nomes que cita são mais próximos da direita do que da esquerda, até porque foram revestidos de uma aura "nacionalista" que tem mais afinidades com alguma direita. Mas não só é possível ter uma aproximação e uma leitura de esquerda de todos esses nomes, como é possível avançar muitas outras figuras. Nesse particular, o critério da "internacionalização", de levar o nome de Portugal aos quatro cantos do mundo, não é decisivo, sendo mesmo um bocadinho provinciano, com o devido respeito.

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