domingo, 6 de novembro de 2016

E se a superpotência que garantiu a ordem internacional resolvesse deixar de o ser?

Teresa de Sousa


1. Thomas Wright, investigador da Brookings, não tem dúvida em afirmar que as eleições presidenciais de 2016 “são as mais pesadas de consequências para a ordem internacional desde a II Guerra Mundial”. Robert Zoellick, que foi o representante americano para o Comércio na era Bush, reconhece que o próximo Presidente “iniciará o seu mandato no momento em que a ordem do pós-guerra, que os EUA se empenharam em estabelecer há 70 anos, está a fracturar-se”. A escolha não é, portanto, indiferente. Num texto publicado noFinancial Times, Zoellick lembra que o sucessor de Obama vai ter de contar com uma opinião pública que se interroga cada vez mais sobre se os Estados Unidos devem continuar a servir de “polícias” do mundo. É, ainda assim, mais optimista quanto à disposição dos americanos. Cita um estudo da Pew Research de Abril passado, segundo o qual 57 por cento dos inquiridos acredita que os EUA “devem tratar dos seus próprios problemas” e “deixar os outros países tratar dos seus da melhor maneira que conseguirem”. Acrescenta, no entanto, que essa disposição sem sequer é original, emergindo periodicamente desde os anos 60. O que é mais importante é que uma maioria afecta aos dois partidos apoia o combate ao Estado Islâmico, cerca de 77 por cento consideram que a NATO é boa para a América e há ainda uma maioria mínima que apoia o comércio internacional. Ou seja, ainda há uma margem de manobra para Clinton, se for ela a eleita. 

2. A maioria dos analistas americanos já deixou há muito de subestimar o “efeito Trump” nas relações internacionais. Pela primeira vez desde a II Guerra, há um candidato presidencial, que chegou a ter possibilidade de ganhar, que se situa fora do amplo consenso político sobre o lugar e o papel dos Estados Unidos no mundo e sobre as grandes orientações da sua política externa e de segurança. Trump não é apenas um isolacionista. Propõe um “regime de aluguer” segundo o qual os aliados teriam de pagar por inteiro a factura da sua segurança, que os EUA garantem. Do Japão à Europa (a NATO é “obsoleta” e “cara”), passando pela Coreia do Sul. Mais vale, defende o candidato republicano, que os amigos dos Estados Unidos se dotem da bomba nuclear, nomeadamente o Japão e a Coreia do Sul, em vez de contarem com a protecção americana. A sua “doutrina” internacional resume-se a uma nova forma de relacionamento com os “homens fortes” que governam os países pouco amigos da ordem liberal, assente numa sólida palmada nas costas. Putin é o seu preferido. Agradeceu-lhe a “invasão” dos mails de Clinton, desafiando-o a continuar. Acusa-a de querer um confronto com Putin na Síria, correndo o risco de provocar a III Guerra Mundial. E nem sequer esconde a sua cumplicidade com Moscovo. Quando John Kerry interrompeu as mais recentes negociações com a Rússia por causa de Alepo, o seu homólogo russo, Sergei Lavrov, classificou de muito grave a decisão americana e deixou cair a ameaça de um confronto “nuclear”. Poucos dias depois, Trump anunciava a III Guerra Mundial de Clinton contra a Rússia. Uma tal presença de uma potência exterior “não tem precedente” na história das eleições americanas, diz Tim Frye, da Universidade de Columbia, citado pela AFP. Quanto aos “homens fortes”, o candidato não é exigente. Vão do Presidente chinês (que acaba de ser consagrado oficialmente o novo “homem forte” da China, depois de Mao e de Deng), ao seu amigo Putin, recuando até Saddam Hussein. É esta perigosa excentricidade que alimenta os pesadelos do establishment da política externa americana e que causa calafrios aos aliados da América. Trump conseguiu deixar o Partido Republicano sem reacção. Rob Crilly escreve no Telegraph que a sua campanha “está cheia de cadáveres dos pesos pesados do Partido Republicano, que subestimaram aquilo que pensavam que era um mero reality show de uma estrela da televisão com um cabelo engraçado e rapidez nos insultos”. Acordaram tarde. 

3. Hillary Clinton herdará esta nova e poderosa tendência populista e isolacionista da qual Trump foi o (péssimo) intérprete e terá de viver com ela. Também herda de Obama uma nova visão do mundo que não compartilha integralmente mas em relação à qual manterá, no essencial, a continuidade. “A sua visão da política externa coloca-a solidamente no centro do pensamento estratégico americano, incluindo o velho consenso sobre a aliança transatlântica”, escreve Jeremy Shapiro. O problema é que vai encontrar uma Europa dividida, que acaba de perder o Reino Unido, que se arrisca a perder a corrida por um lugar na primeira fila, reservado aos actores principais, pouco virada para ajudar os EUA na preservação de uma ordem internacional que garanta os princípios essenciais das democracias. E onde, é bom dizê-lo, também proliferam os amigos de Putin. Como todos os Presidentes antes dela, dirá aos europeus que têm de fazer mais pela sua segurança e pela segurança internacional. A Europa reagiu mal à decisão de Obama de virar a prioridade estratégica dos EUA do Atlântico para o Pacífico. Hillary apoiou esta mudança e foi ela, em grande medida, que a executou, mostrando a Pequim que os EUA não tencionam vir-se embora. Mas a China continua lá e Hillary terá de encontrar maneira de manter um equilíbrio muito difícil entre a cooperação e a contenção do seu poder crescente. Os conflitos latentes nos mares da China do Sul e de Leste, que Pequim reivindica aos países ribeirinhos e ao Japão, continuarão a ser um exercício de alta tensão.

Sem comentários: