quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Oito horas e meia na escola não são suficientes?!

João Cabrita Saraiva

É um crime e um absurdo obrigar as crianças a fazer no pouco tempo que passam em casa aquilo que não fizeram em oito horas e meia de escola.

Partamos do princípio de que, por dia, um aluno do ensino básico passa dez horas a dormir e 14 horas acordado. Levanta-se entre as 7h30 e as 8h30 e, consoante a distância para a escola, sai de casa um pouco antes das nove. As aulas começam às nove em ponto e terminam, com períodos de intervalo pelo meio, às 17h30.
Se este aluno estiver de regresso a casa por volta das seis da tarde, restam-lhe apenas três horas e meia do dia para aproveitar. Mas esse tempo também tem de dar para o jantar, para tomar banho, vestir o pijama… e fazer os trabalhos de casa.
Acontece que estamos a falar de uma criança entre os seis e os dez anos. Depois de um dia inteiro na escola, e tendo acordado cedo, é natural que por essa altura já esteja muito cansada, o que ameaça transformar a realização dos trabalhos de casa num verdadeiro suplício tanto para ela como para o encarregado de educação. Não por acaso, um conhecido psicanalista traduzia a sigla T.P.C. por ‘Tortura Para Criancinhas’.
Ora, passando os nossos filhos tantas horas na escola (durante os dias úteis, quase dois terços do tempo que passam acordados) ainda têm de trazer a sala de aulas para casa?
Um artigo publicado há dias pela BBC online falava do caso finlandês, que se caracteriza por uma solução oposta. A Finlândia é um dos países com menos carga horária nas escolas, menos trabalhos de casa e períodos de férias mais longos. E, no entanto, a taxa de sucesso dos seus alunos é das mais altas da OCDE.
Sei que é preciso encarar com muita cautela todas as mudanças na área do ensino e que a pesada carga horária dos alunos portugueses resulta em grande parte do ritmo dos próprios pais, que precisam de manter os filhos ocupados enquanto estão nos seus empregos.
Mas, mesmo que não se reduza a carga horária, pode-se e deve-se reservar os trabalhos de casa para situações absolutamente excecionais. A menos que estejamos empenhados em formar uma geração de workaholics, é um crime e um absurdo obrigar as crianças a fazer no pouco tempo que passam em casa aquilo que não fizeram em oito horas e meia de escola.

Sem comentários: