terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Helena Matos, sobre o congresso do PCP



"Que o PCP use a retórica que lhe convém não me choca. O que não me parece normal é que tenhamos de fazer de conta que os comunistas o fazem porque, quais viajantes perdidos de uma qualquer máquina do tempo avariada, nada mais lhes resta. Os partidos têm programas para governar os países. Os congressistas de Almada, que estou certa jamais quereriam viver num país governado por comunistas (a não ser, claro, que fizessem parte dos quadros dirigentes, mas mesmo esses mandariam os filhos e os netos estudar no mundo capitalista) têm um objectivo bem diferente: que o país garanta ao PCP um estatuto imune ao número de votos que o partido obtiver nas eleições. (Tente-se traduzir este objectivo apontado por Jerónimo de Sousa no seu discurso de encerramento: “luta pelos direitos dos trabalhadores com alteração dos aspetos gravosos do Código Laboral” e é precisamente a esses privilégios da oligarquia sindical comunista que chegamos.) Porque o poder do PCP não está tanto na Assembleia da República mas sim nas portarias de extensão, no enquadramento legal que dá aos sindicatos o monopólio da representação nas negociações dos acordos de trabalho, no controlo dos organogramas das empresas públicas, nas comissões de utentes e representantes, onde os seus quadros, eleitos cada vez por menos pessoas, multiplicam a visibilidade e o poder dos comunistas através de um conglomerado de uniões, federações e confederações. E é desse mundo e de como o perpetuar para lá da vida deste Governo que o PCP trata sob a capa mediaticamente diáfana da luta, da linha, do novo PCP, da direita, dos trabalhadores, dos “faz de conta que são operários” e “intelectuais” (o que intelectualizarão essas almas?) eleitos para o comité central… 

O PCP apoia e apoiará este ou qualquer outro Governo enquanto daí retirar vantagens para se blindar no aparelho de Estado. Fazer uma coisa e dizer o seu contrário é aquilo em que o PCP se especializou. Que o PCP o faça faz parte da sua História e explica o seu sucesso. O resto é propaganda. E da boa. O que não entendo e me cansa é que todos tenhamos de viver isso com o abandono de quem escuta um fado."

1 comentário:

Bilder disse...

Graças a Mário Soares(a existência do pcp) que disse que o pcp era essencial à demo-cracia tuga(e isso depois do 25 Novembro de 1975)mesmo depois de tudo o que disse sobre o comunismo no verão de 1975.