domingo, 18 de dezembro de 2016

"Isto Não se Faz"

"Cruzei-me novamente com ele há poucos dias atrás. Costuma vaguear sempre na mesma zona, de olhos cinzentos e tristes, mas conformados, barba branca e o aspecto daquilo que se pode designar como sendo o de um autêntico "vencido da vida". Anda sempre acompanhado de um saco cheia de coisas que vai encontrando abandonadas nas ruas e nos caixotes de lixo onde esgravata dia e noite, faça chuva ou faça sol. Não sei como se chama, nem de onde é natural, nem sei como foi parar à rua. Só sei que é mais um dos muitos sem-abrigos que temos em Portugal.



Há algumas semanas atrás e quando eu estava a chegar a casa do trabalho quase às duas da manhã, dei por ele a dormir na entrada do meu prédio. Fiquei parado a olhar para o sujeito que estava ali esticado à minha frente, a dormir enrolado numa velha manta cinzenta. A rua estava absolutamente deserta. Como eu não sou propriamente pequeno do ponto de vista físico, medindo 181cm de altura e pesando 85kg, imagino o susto que lhe devo ter pregado, pois assim que ele se apercebeu da minha presença colocou os braços à frente da cara julgando que eu o ía agredir a pontapé. Nada disso, eu só queria passar por cima dele para entrar no meu prédio e ir para casa em paz.

Passei cuidadosamente por cima do pobre desgraçado que ali estava, subi no elevador, entrei em casa e comecei a pensar no assunto. Eu sabia que as regras do prédio proíbem a presença de sem-abrigos na entrada do mesmo. Sabia também que era meu dever, por motivos de segurança, expulsar aquele desgraçado dali para fora e chamar a polícia se ele se recusasse a sair. Mas como podia eu fazer uma coisa dessas? Ia eu agora descer agasalhado nas minhas roupas confortáveis e bem lavadas, para expulsar à força do prédio um pobre coitado que tem idade para ser meu pai e que só se está a abrigar do frio? É que eu até posso ser bastante mau quando quero e preciso de o ser, mas não sou nenhum monstro.

Acabei por descer, não tive outro remédio, desci e levei comigo um saco onde meti todo o pão e todas as conservas de peixe, queijos e enchidos que tinha em casa. Assim que cheguei à entrada do prédio, estendi o braço e disse "toma, é para ti". Ele, deitado no chão e enrolado na manta suja que o cobria, olhou para mim de ar surpreendido e hesitou, talvez pensasse que eu estava ali para lhe fazer alguma maldade, tive de insistir novamente subindo o tom da voz: "toma, é comida, é tudo para ti"! Por fim, devagarinho e com cuidado ele lá acabou por pegar no saco cheio de comida que eu lhe estava a oferecer. Voltei para o elevador, subi e entrei em casa sabendo que tinha acabado de quebrar todas as regras de segurança do prédio e que poderia vir mesmo a ter chatices com o administrador por causa daquilo que tinha acabado de fazer. Tinha não só permitido que um estranho ficasse a passar a noite na entrada do prédio, como ainda lhe fui oferecer comida, incentivando assim a estadia.

Eu não poderia ter agido de outra forma. Eu sei que se naquela noite tivesse feito as coisas ao contrário, provavelmente não teria conseguido dormir descansado durante várias noites seguidas e a minha consciência não me largaria durante muito tempo.

Hoje e como é meu hábito, quando estava a beber o primeiro café do dia, meti-me a navegar pelas páginas de alguns jornais portugueses de maior referência, de forma a inteirar-me da propaganda do "sistema" e no website do DN encontrei uma notícia onde se diz que Portugal recebeu até agora 720 "migrantes" recolocados a partir da Grecia e da Itália. Depois de ter soltado meia-dúzia de impropérios em frente ao computador que até abanou com a fúria expelida por mim, lembrei-me do pobre sem-abrigo de que eu acima falei. Este nosso compatriota que, volto a repetir, não sei como se chama, continua a dormir na rua onde calha a encontrar abrigo ao acaso e vive do que encontra e do que por piedade lhe oferecem. Nunca o vi a mendigar. No entanto, é tratado abaixo de cão pelo Estado português, o mesmo Estado que simultaneamente importa centenas de "migrantes" aos quais oferece casa, água, comida, electricidade, roupa lavada e formação profissional, tudo de graça.

É inadmissível que estas benesses sejam atribuídas a estrangeiros que nunca descontaram um cêntimo sequer para o Estado português, enquanto ao mesmo tempo muitos portugueses que já trabalharam e descontaram no passado, se vêem votados ao mais absoluto abandono como se fossem animais. Isto não se faz. Ponto. Quem faz isto é um canalha. Portugal é hoje governado por canalhas e traidores ao povo e à Pátria. Bandidos que escudados por tribunais controlados pela maçonaria e militares comprados pelo regime, roubam e humilham o povo português, enquanto simultaneamente consentem que a União Europeia envie estrangeiros para o nosso País, que passam a viver num luxo escandaloso em comparação com os sem-abrigos nacionais, cujo único "luxo" de que usufruem à noite é muitas vezes a calçada da rua. A sério, isto mete nojo, é revoltante e demonstra bem o grau de imoralidade a que chegou a sociedade portuguesa em geral."

João José Horta Nobre

2 comentários:

João José Horta Nobre disse...

Obrigado pela divulgação.

;)

A-24 disse...

De nada, meu caro. A sua atitude foi, tal como o seu nome, bastante Nobre!