domingo, 4 de dezembro de 2016

O mórbido triunfo do futebol




No desastre aéreo da Colômbia, só os jogadores de futebol tiveram direito a ser história. Ficou assim mais uma vez demonstrado o domínio do futebol sobre tudo o mais na nossa sociedade.
Não foi a mais confortável das semanas para ver notícias.
Logo que se soube do desastre aéreo na Colômbia, a comunicação social nunca mais largou o tema.
Era normal que assim fosse, claro. Desde o desastre do Hindenburg, que as imagens dos desastres aéreos, com destroços espalhados pelas montanhas, pelos campos, pelo mar, têm algo de aterrador mas também de irresistível. Deve haver uma parte de nós que precisa de ver essas imagens, para aceitar ou confrontar os factos.
Mas desta vez, não foi difícil ver as notícias só por causa das habituais imagens da catástrofe, mas sobretudo por causas das outras, as imagens filmadas e fotografadas antes do voo. Entrevistas com o piloto e vídeos e selfies cheios de alegria dos jogadores dentro do avião foram reproduzidos constantemente nas televisões e nos jornais. As imagens pré-voo são perturbadoras, muito mais perturbadoras do que qualquer imagem dos destroços. Inspiram tristeza, claro, mas condensam também, de modo mórbido, a horrível ironia da situação: rapazes que estavam a caminho de um sucesso que lhes foi roubado com a vida.


Era inevitável que estas imagens aparecessem nos nossos ecrãs, por duas razões. Uma é a capacidade que toda a gente hoje tem de captar imagens e transmiti-las imediatamente, esteja onde estiver. Já deve ser costume, quando acontece qualquer desastre, que os jornalistas vasculhem com urgência as contas das vítimas nas redes sociais, para tentarem encontrar qualquer upload feito antes do evento fatídico.
A razão principal, no entanto, porque estas imagens foram repetidas vezes sem conta, e porque o lamento foi mais alto e constante do que para as vítimas de qualquer outro desastre, foi esta: morreu uma equipa de futebol.
Desde os segundos iniciais, quando se percebeu que o acidente aéreo na Colômbia tinha matado uma equipa inteira de jogadores de futebol, a comunicação social foi a todo o vapor à procura da história de cada jogador, e a seguir cobriu minuciosamente cada acto em memória desses mortos, incluindo o transporte dos caixões. A aura que envolve o futebol sempre me pareceu misteriosa, e o ângulo dado a esta história também.
As estações de televisão correram logo a entrevistar as famílias dos jogadores. A insistência de muitas televisões em entrevistar pessoas recém-enlutadas, a poucas horas da morte dos seus parentes, é cruel e de mau gosto, mas todas as televisões o fazem, e já é aceite como normal. Espanta-me sempre que os entrevistados aceitem falar, mas aceitam, e as entrevistas continuam.
Desta vez, uma das entrevistadas foi a mãe do guarda-redes, logo nas primeiras horas depois do acidente. Ela ainda não sabia se o filho estava vivo ou morto. Foi doloroso assistir.
Ontem, foi entrevistada de novo, no campo de futebol. Descreveu a terrível perda de um filho com calma e serenidade, mas de repente, parou e fez uma pergunta ao repórter. Perguntou-lhe isto: como é que ele e os seus colegas da imprensa estavam a lidar com as suas próprias perdas, já que tantos jornalistas haviam morrido no desastre. O repórter ficou sem palavras. A senhora, então, abraçou-o e reconfortou-o.
Por causa do futebol, essa praga, essa coisa mística, por causa da importância ofuscante que dão a esse maldito jogo, a comunicação social, ela própria, quase nem reparou que vinte colegas seus, mais o pessoal de bordo e outros passageiros, também tinham morrido no desastre. Ou seja, todas as pessoas que não eram jogadores de futebol não tiveram direito a rostos, a histórias.
E foi a Dona Alaíde, que perdeu o seu filho, Danilo, que nos lembrou desse facto. Que grande mulher.
Traduzido do original inglês pela autora. Lucy Pepper é autora do livro “Como não morrer de fome em Portugal” (Objectiva, 2016).

1 comentário:

Afonso de Portugal disse...

O futebol profissional vende. E vende muito, infelizmente! Até os racistas mais convictos ficam cegos e deslumbrados quando um pretinho como Éder marca um golo pela selecção. O apelo aos nossos instintos primitivos é quase sempre insuperável. Bem-aventurados sejam os que compreendem esta realidade, pois deles serão os lucros do negócio!