sábado, 31 de dezembro de 2016

Porque será que o PCP resiste ao tempo?

José Milhazes 

Tendo em conta a situação política, económica e social que se vive em Portugal e na União Europeia, é previsível que o PCP tenha ainda muitos anos de vida


Porque será que o Partido Comunista Português é praticamente o único partido comunista que ainda sobrevive na Europa? Por duas razões fundamentais: pelo subdesenvolvimento de Portugal em relação aos países ricos do continente europeu, que continua a manter desigualdades sociais grandes, e pelo facto de esta força política defender aquilo que noutros países europeus é defendido pela extrema-direita.
Ninguém esperava que o XX Congresso do Partido Comunista se transformasse em algo minimamente semelhante ao XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética de 1956, reunião em que os líderes soviéticos reconheceram os crimes (não foram erros, nem desvios) do regime estalinista. Como disse o deputado comunista António Filipe numa entrevista ao Observador: “Esses balanços estão feitos”.
Esses balanços estão feitos também em relação aos regimes comunistas de Cuba, Coreia do Norte, Vietname, China, ou ao regime “democrático-familiar” de Angola. Segundo os comunistas portugueses, qualquer um desses regimes é melhor do que as democracias europeias. Mas, em todo o caso, propõem para os mais cépticos uma via própria para o socialismo.
António Filipe dá um exemplo curioso para provar que em Cuba não houve, nem há presos políticos: “Vimos agora na recente visita do presidente Barack Obama, em que um jornalista norte-americano perguntou ao presidente Raul Castro porque é que não libertava os presos políticos e a resposta dele foi: ‘Diga-me lá quais são que eu liberto-os de imediato’”.
Ora, o deputado comunista deve ter-se esquecido que essa resposta não foi original, mas utilizada por dirigentes de outros regimes comunistas e totalitários. Os líderes soviéticos diziam exactamente o mesmo em relação a conhecidos dissidentes. Por exemplo, é o caso do grande poeta Iossif Brodski, Prémio Nobel da Literatura. Ele foi condenado por não ter um emprego, e não pelas ideias que defendia. Ou seja, assim não se poderia chamar preso político a uma pessoa que cometeu um crime de delito comum (quem não tivesse um emprego na URSS era considerado um criminoso — Brodski afirmou no tribunal que era poeta, mas o juiz não aceitou essa explicação e condenou-o). Esse método é actualmente utilizado na Rússia, onde Vladimir Putin deu precisamente a mesma resposta que deu Raúl Castro aos jornalistas quando lhe fizeram essa pergunta.
Nada de original tem a política do PCP em relação ao apoio de um governo do PS, considerado pelos comunistas “partido burguês” e de “direita”. Como é sabido dos clássicos do marxismo-leninismo, os fins justificam os meios e são permitidas alianças até com o diabo, desde que favoreçam a causa. Daí a política do “participa, mas não entra”.
Porém, os comunistas serão os primeiros a roer a corda quando as coisas começarem a dar para o torto. Por exemplo, a domada Intersindical passará à ofensiva.
Houve tempos em que o PCP se gabava de ter mais de 200 mil militantes, mas hoje são pouco mais de 50 mil. No entanto, ainda é cedo para tirar conclusões sobre a morte irreversível desta força política. Tendo em conta a situação política, económica e social que se vive em Portugal e na União Europeia, é previsível que o PCP tenha ainda muitos anos de vida, a não ser que o seu mais perigoso adversário, o Bloco de Esquerda, lhe continue a roubar o nicho por ele ocupado no sistema político português.
Além do atraso crónico em relação ao núcleo central dos países da União Europeia, fruto da incompetência dos partidos centristas, das ligações obscuras entre os poderes financeiro e político, da corrupção, etc., que fazem com que muitos cidadãos procurem soluções noutros quadrantes políticos mais radicais, em Portugal, devido à ausência de forças da extrema-direita, o PCP e o BE chamam a si também o papel que esse sector político desempenha noutros países da UE, estão juntos no combate contra o projecto europeu.
Exceptuando a xenofobia, exigências como a saída do euro ou até da União Europeia são comuns a ambos esses sectores políticos extremos. Em alguns sectores, o discurso de Jerónimo de Sousa ou de Catarina Martins não ficam atrás dos de Marine Le Pen no que diz respeito à “defesa dos interesses nacionais”.
Também não é por acaso que esses sectores apoiam a política externa de Vladimir Putin, vendo nela uma ajuda na destruição da União Europeia e no “combate ao imperialismo”.
A burocracia de Bruxelas e os governos dos países membros da União Europeia mostram cada vez menos capacidade de dar um novo alento ao processo de coesão, o projecto europeu está cada vez mais à deriva, criando um clima fértil para que forças extremistas conservem ou aumentem mesmo o seu poder de influência, para que surjam políticos populistas capazes de fazerem recuar a Europa a épocas sombrias.

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