sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Será mesmo só populismo?

M. FÁTIMA BONIFÁCIO
Na Europa e na América, esse povo esquecido e desprezado, essa massa democrática primitiva irrompeu com estrondo pela Ágora adentro. Não os conciliarão com lisonjas tardias.

Populismo, no singular ou no plural, é seguramente uma das palavras mais repetidas ao longo do ano que se aproxima do fim. Há populismo por toda a parte da Europa; Donald Trump terá significado o triunfo do populismo nos EUA; e até oiço e leio que Putin é populista! É verdade que há muitas espécies de populismo em várias partes da Europa; não é verdade que a vitória de Trump tenha representado o triunfo do populismo na América; e Putin é um autocrata ditatorial que se pode dar ao supremo luxo de fazer eleições e manter um Parlamento, sen recurso a populismo nenhum.

Esta dramática confusão semântica revela uma coisa: não temos ferramentas conceptuais para analisar o que está a acontecer no Mundo. Não admira. O Mundo está a transformar-se a um ritmo mais veloz do que a nossa capacidade de o intelectualizar. Não temos nome para a coisa que vemos acontecer sob os nossos olhos: uma gigantesca mutação histórica a processar-se a um ritmo inédito, o que faz do momento que vivemos o período mais imprevisível de que há memória. Esta imprevisibilidade é uma tremenda fonte de insegurança e angústia, que por seu turno aduba o solo para a emergência de fenómenos colectivos que não sabemos como interpretar. Hoje, vive-se às cegas.
No meio desta turbamulta, há porém alguns elementos da realidade que podemos ao menos constatar. No plano mundial, a mudança geopolítica é radical. À região da Ásia-Pacífico, em que avulta a gigantesca China rodeada pelas suas adjacências e o seu velho rival, o Japão, junta-se Putin e o seu Império em construção. A eleição de Trump incendiou a ambição imperial do novo czar de todas as Rússias. E vai construí-lo em aliança tácita com Donald Trump, que com razão dá a Europa por economicamente arrumada, militarmente desarmada e intelectualmente vencida. E a Europa, coitada, queixa-se da ingratidão (?) americana, e implora à Sra. Merkel que se recandidate. Percebe-se: Merkel é hoje em dia a única líder europeia digna desse nome. Mas a Alemanha, em virtude do seu século XX, tão cedo não poderá ascender a potência protectora da Europa, e, embora seja grande demais para a Europa, é demasiado pequena para aspirar ao papel de player mundial de primeira ordem.
A extrema direita começa a “normalizar-se”. A xenofobia, o nacionalismo, a islamofobia, o racismo e, sobretudo, a revolta contra o centralismo de Bruxelas adquiriram direito de cidade, e na cidade começou-se a ouvir, também, a voz oficial de políticos democraticamente eleitos que, com desassombrada incorrecção política, dizem às massas o que fora proibido dizer mas era o que elas sentiam e pensavam. Não sendo possível mudar de povo, mudaram os políticos. Alegadamente, tornaram-se todos, indistintamente, “populistas” – de direita, de esquerda, do centro, de cima e de baixo. Até o desnorteante voto da tão razoável Grã-Bretanha a favor do "Brexit" foi interpretado como um transvio populista do sensato povo britânico.
Ao aparente paradoxo de uma aliança, formal ou informal, entre os EUA e a Rússia, com ofensiva marginalização do velho Continente, junta-se outro paradoxo não menos desconcertante: os pobres desataram a votar em milionários. É verdade que, na Itália, muitos deles já tinham votado em Berlusconi, mas a Itália é periférica e esdrúxula. Trump, um milionário com modos e linguagem de carroceiro, misógino e racista, conseguiu captar para os republicanos o voto dos mais desfavorecidos. E estes desafortunados foram decisivos para a eleição dos afortunados, que Trump não assusta.
Mas em quê, exactamente, terá consistido o alegado populismo de Trump ? O populismo paradigmaticamente exemplificado pelo “Syrisa” grego ou pelo “Podemos” espanhol, politicamente correctíssimo, tem a pretensão de possuir um pedigree intelectual e académico que reabilita e promove a mentira na política democrática como meio legítimo de captar votos e o poder. Mas os Trumps de vários pêlos e estilos não mentem: limitam-se a dizer o que o povo pensa mas ninguém diz - pelo motivo de que o establishment vive protegido pelo “politicamente correcto”, uma forma de censura insidiosa mas violenta que impede a livre expressão das “inconveniências” que escandalizam as elites bem-pensantes e os eleitorados educados.

Na Europa e na América, esse povo esquecido e desprezado, essa massa democrática primitiva irrompeu com estrondo pela Ágora adentro. Não os conciliarão com lisonjas tardias. Não lhes venham com a Democracia, os Direitos Humanos e os santos princípios humanitários, de que eles não sentem os efeitos. São gente que derrubou as muralhas da Cidade dentro da qual estes valores habitavam, e começaram a desalojar os seus guardiães bem-pensantes – o “sistema”, o “establishment”, a “oligarquia”, tudo isso, com as suas querelas de família, vivia entrincheirado atrás de ameias semânticas agora contra eles de facto “desconstruídas”.
Os partidos, sobressaltados, “abrem-se” à sociedade, esbracejando para sair do gueto, mas, com os novíssimos manobrismos democratizantes apenas apressam o seu fim. A Democracia, sobre os quais ela assenta, não tem meios para integrar os novos “bárbaros” ocidentais; para absorver o protesto anti-sistema que sobressai como denominador comum de tantos e tão diversos protestos.
Suspeito que um dia, não muito distante, surgirá, de entre o remoinho do pensamento de envolta com o agir desencontrado dos escarnecidos “populistas”, uma nova e surpreendente forma de nos organizarmos politicamente. E suspeito, também, que as categorias de Esquerda e Direita, já hoje insatisfatórias, perderão toda a utilidade classificativa e irão desaparecendo por inadequação e desuso. Nada do que é humano tem o privilégio da Eternidade.

2 comentários:

Bilder disse...

Mas estamos agora no "pós-verdade" pelo que se diz por aí.Por falar nisso: Pós-verdade? Chama-se esquerda

O espetáculo em redor da palavra “pós-verdade” chega a ser cómico. Anda tudo indignado com as narrativas de Trump, que são imunes à verdade. Mas deixem-me fazer uma pergunta: onde é que andaram nas últimas décadas? O pós-verdade tem sido o ofício da esquerda pós-moderna. Desde os anos 60, a pós-modernidade não tem feito outra coisa senão destruir o conceito de verdade através de um relativismo epistemológico, moral e cultural. O pós-verdade tem sido o ar que respiramos. O vento apenas mudou de direção. No desrespeito pela verdade, a direita de Trump é idêntica à esquerda pós-moderna que nos apascentou nas últimas décadas.

O relativismo epistemológico determinou que não existe verdade empírica, apenas narrativas. Nesta mundividência, a realidade perde a sua forma material, demográfica, económica, geográfica. Ficamos reduzidos a um mero verbalismo estético que desiste de percecionar a realidade que é comum a toda a gente; em vez disso, cria-se uma realidade privativa, a tal narrativa. Entre nós, é essa a essência dos socráticos: o que interessa é a narrativa e o apelo emocional das palavras, não a sua veracidade. É por isso que ainda dizem que a segurança social é sustentável. Quando alguém recorda que temos um rácio trabalhador/reformado de 1,4 e que temos uma taxa de natalidade de 1,2, os socráticos transformam estes factos insofismáveis em “narrativas neoliberais”. A outro nível, pelo Ocidente inteiro, as humanidades ou ciências sociais foram destruídas por este relativismo cognitivo que transforma a realidade numa mera extensão privada de quem escreve. É o inferno construtivista. É como se não existissem constrangimentos materiais à expressão linguística do livre arbítrio. Pior: é como se as palavras não tivessem significado material e moral. É por isso que Zizek analisa o cristianismo através dos ovos Kinder enquanto tenta desvalorizar as mortes do totalitarismo; brinca com a palavra “totalitarismo” como se não tivessem morrido milhões de pessoas no gulag.

Se há uma abolição da verdade empírica, também há a destruição da verdade enquanto conceito moral. Os socráticos ficam indignados quando alguém diz que José Sócrates teve comportamentos indecentes (receber dinheiro do amigo construtor, por exemplo); quando é a lei a indicar essa imoralidade, garantem que é uma cabala e transformam o ministério público numa pide de toga. A outro nível, pelo Ocidente inteiro, a destruição da verdade moral é a essência do politicamente correto ou do multiculturalismo. De forma reacionária, a esquerda multiculturalista diz que não existe uma moral transcendente por cima da história e das culturas; cada cultura é terminal e define por si só a sua verdade; não há direito natural, tudo é relativo. É por esta razão que não se pode criticar muçulmanos, negros ou ciganos a partir de um conceito universal de decência. Diz-se que esse conceito universal de decência é um tique racista. Portanto, se o pós-verdade tem sido este ganha-pão da esquerda, porque é que só acordaram agora? Do mal, o menos: este despertar é o princípio do fim do pós-modernismo.

Henrique Raposo no Expresso (17-12-2016)

A-24 disse...

Obrigado pelo link, caro Bilder. Será redivulgado! Concordo em absoluto com o Henrique Raposo