segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A ameaça de Almaraz

A-24: talvez a única utilidade da UE seja mesmo para questões destas. Mas enquanto eles estudam, analisam, degustam e por fim decidam, por esta península, a Espanha continua a fazer o que bem lhe apetece, não respeitando, inclusive, os próprios habitantes de Almaraz.

Fernando Sobral




«Há alguns anos um dos mais populares grupos de rock da Galiza, os Resentidos, intitulou um disco seu como: "Vigo, capital Lisboa." Era uma ponte de afectos para lá das fronteiras, entre duas regiões que não se confundiam com dois países que viveram muito tempo de costas voltadas. Portugal fez-se por oposição a Castela, nunca o poderemos esquecer. Salvou-se da integração porque num momento crítico a coroa espanhola preferiu ficar com a Catalunha, nessa altura aliada dos franceses, em vez de Portugal, aliada dos ingleses. Vivemos sempre o dilema dessa divisão que nunca cicatrizou entre os povos de Espanha. Até porque o ADN imperial de Madrid nunca desapareceu: liofilizou-se. A independência nacional teve de se fazer sempre perante Castela. (…)

Almaraz não é um acaso. É apenas mais um sintoma do habitual ego arrogante de Madrid face a tudo o que a cerca. Quantos exemplos precisamos de recordar nos últimos anos sobre essa forma de ignorar a transparência e criar situações de facto? O caso da posse das ilhas Selvagens foi exemplar. A vergonha do "Prestige", em 2002, foi outro: no meio do silêncio o Governo espanhol da altura tentou empurrar o navio para águas portuguesas e foi preciso a atitude séria e musculada de Paulo Portas para que não ficássemos com o problema nas mãos. Madrid nunca aprende. Não é uma teoria da conspiração: é um facto. No caso de Almaraz, o Governo de Mariano Rajoy fez o que é habitual: tomou uma decisão e depois abriu a porta a conversas sem sentido. O Governo português esteve distraído demasiado tempo. E agora só resta que a UE decida algo, se decidir. Mas até lá Almaraz continuará a ser um Darth Vader.»

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