domingo, 8 de janeiro de 2017

A política na idade do Twitter

Fernando Sobral 
«Na idade em que a política passou a ser delineada pelo Twitter, em Itália sussurra-se que Silvio Berlusconi poderá vir a ser a "salvação" do regime, contra as tendências da direita que quer "libertar" o norte do país e o movimento 5 Estrelas de Beppe Grillo.


Há quem faça, neste tempo de mutação acelerada da política, uma ligação entre Berlusconi e o imprevisível Donald Trump. Mas há diferenças entre o populismo de ambos. No seu auge, Silvio Berlusconi controlava todas as televisões do país e grande parte da imprensa escrita. Tinha desde logo uma vantagem enorme sobre o resto dos partidos e das opiniões que lhe eram contrárias. Pelo contrário, Donald Trump fez uma campanha sem o apoio dos meios de comunicação tradicionais. E ganhou contra todos, utilizando-os e manipulando-os. (…)

Há uma outra diferença neste novo mundo do populismo e da crise das democracias. Berlusconi vendia, num tempo de euforia, um falso optimismo. Donald Trump dirigiu-se, pelo contrário, a uma América zangada. Não deixa de ser curioso que muitos latinos votaram em Trump, apesar de tudo o que ele disse sobre os emigrantes e o México. Ou seja: ele percebeu algo. Mesmo muitos emigrantes não querem competição no mercado de trabalho. Desejam segurança. E Trump promete-lhes isso. Este egoísmo é hoje fulcral na nova forma de se fazer política populista. (…)

As democracias suicidam-se. E é isso que está a acontecer na Europa. A batalha gramsciana de hegemonia política está a ganhar um novo marco conceptual. Agora pode mentir-se sem consequências. A nova revolta contra as elites surge em todas as esquinas, propiciada pela austeridade cega e a sensação de insegurança que é cada vez mais latente. Assumir com tranquilidade a pós-verdade como algo normal, inevitável numa sociedade mediática e de curta memória em que vivemos está a trazer uma enorme crise à democracia. (…) A crise económica trouxe uma crise de valores e de solidariedade. Longe vai o tempo dos Mosqueteiros: todos por um e um por todos.»

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